Artistinha, graças a Deus.

Há mais ou menos 5 anos, eu estava prestes a me formar. Era uma daquelas fases de vida balançante que jogam a gente de um lado pra outro, e naquele instante eu estava sendo jogada para fora de um emprego bacana. E, de repente, toda a crise que tive para encontrar meu primeiro emprego de verdade voltou à minha mente. Porque esse tipo de crise é um tipo que não morre, não. Fica lá, latente. Ela só muda de formato, e vai somando problemas a cada nova fase da vida (ah, que saudades de quando eu não pagava meu aluguel!). Provavelmente, vai acontecer de novo.

E lá fui eu, batendo de porta em porta, encarando todo tipo de clichê de diretores de criação, eu e minha engraçada pasta na mão. Cheguei ao ponto de ser entrevistada por um deles que, em pleno milênio, curtia fazer a pose de Don Draper. A entrevista aconteceu enquanto ele bebia vinho e me dizia que a relação da agência dele com o cliente era tão legal que eles até se encontravam para tomar droga juntos. Achei tão moderno.

Outra entrevista marcou minha vida. Foi outro diretor de criação que curtia uma pose. Ele pegou meu portfólio, bem simples ainda na época, e me devolveu imediatamente.

– Não vejo projetos pessoais. – ele disse. – é coisa de artistinha, e artistinhas nunca viram bons publicitários.

Ouvi aquilo, me levantei e, pouco antes de sumir para o mundo, pensei, não falei: “palhaço.”

(e no fim, ele foi mesmo palhaço comigo, no hospital, anos depois, porque a vida é assim, cheia de piadinhas).

A verdade é que, graças a Deus, não dei ouvidos a esse conselho. E dias depois, encontrei uma agência que acreditou no potencial dessa pretensa artistinha, um diretor de criação que sabe canalizar arte até em e-mail marketing, na medida certa – e lá amarrei meu bode.

4 anos depois, o bode já estava todo reclamão e me chamou de canto: – escuta, sai daí um pouco. Vai passear, ver como está o mundo lá fora. O pior que pode acontecer é você se arrepender. E desamarrei o bode e passei os últimos 6 meses entendendo o universo da propaganda em outra agência. Bem reconhecida, bem antiga, bem tradiça. E me arrependi.

Só não me arrependi completamente porque esses quase 6 meses serviram de alguma coisa. Com eles, entendi, em resumo, o que está faltando na propaganda, hoje. São os artistinhas.

Entendi que a divisão entre propaganda offline e propaganda digital existe sim, e vi como o resultado disso é pior que número ruim de circo mambembe. Mas disso eu até já sabia. O maior aprendizado desse tempo foi mesmo ver que não, a culpa desse circo não é só dos velhinhos que não sabem mexer no computador. É muito fácil jogar a culpa neles, enquanto enfiamos nossos empinados narizes de geração Y em nossos copinhos de Yakult. Nananinanão. A culpa é muito nossa, muito minha, muito dessa geração que está chegando. Geração que anda vendendo propaganda com manual de instrução.

E enquanto o “redator offline”, por mais empoeirado que esteja, ainda lê seu título pro cliente com um brilhinho no olhar, um resquício de arte, mesmo que já com um pouco de esforço para fazer o mundo do trocadilho subsistir, a equipe modernosa de digital (ah, sim, dígital, com acento no primeiro i, pra ficar ainda mais sofisticado) começa a falar de parallax, paracax, QR code, shenanigans, bluetooth, com ponta da língua entre os dentes e tudo. E tira dos bolsos referências e mais referências, e fala de códigos e siglas e engajamentos. E tira de seu trabalho a magia. Paixão pelo que está apresentando? Cadê? Não sei. Talvez ela esteja escondida em algum rodapé entre o slide 45 e o 59.

Estou achando é que perigamos virar uma geração de antenados, no pior sentido da palavra. Porque se deixar, recebemos conteúdo e mais conteúdo, sem tempo de deixar que ele se misture em nossa cabeça e vire coisa nova. Estamos é virando um bando de esponja com antenas, devolvendo para o mundo job requentado, tecnologia sem sentido, coisa que é legal até a página 1. Vou te contar, hoje, a (má) propaganda anda sendo um tal de botar chantilly em falta de ideia.

Que dá saudades dos tempos do pão com manteiga. Aquele em que, em vez de se pensar primeiro na plataforma, ou na última tendência do FWA, não se pensava. Intuía-se.

E aí sim, depois que a ideia nasce, depois que ela sai da sala de reunião brilhando, com gente sorrindo e com aquele jeitão de que quer mudar o mundo, aí sim ela vai em busca da melhor tecnologia para existir bem. Porque aí sim até wireframe pode ser lido com paixão.

Ufa.

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O livro que você não pode colocar na sua “pilha de livros para ler”

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Porque essa pilha de livros para ler é uma das coisas da vida que são assustadoras, que vão se acumulando, prontas para serem devoradas por nós,  com jeitinho, na verdade, de que nos devorarão. A minha fica dentro do meu guarda-roupa e já está quase saltando pra fora, inda mais agora que resolvi reler Os Miseráveis depois de 10 anos (e continua bom, viu?). Aí que a DraftFCB criou uma campanha em prol de novos autores, incentivando nós, leitores, a ler mais rápido e parar de empilhar livros pela vida.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas pra mim deviam era fazer um desses pra escritores. Já pensou? Um software que apaga seus escritos se você demorar mais que 12 anos pra escrever? Ia ser muito sucesso.

 

 

Nota mental e a habilidade de saber de quem ouvir críticas

Dia desses tive uma conversa inusitada com alguém que admiro muito profissionalmente. E foi sensacional. Inspiradora, animadora, coisa bonita, mesmo. E lembrei de um aprendizado que tive lá atraszão, lá no meu primeiro emprego oficial, em que um dentista bastante incompetente criativamente me cobrava de minuto a minuto que eu fosse mais criativa.

É óbvio que eu me achava muito incompetente.

É ótimo que, tempos depois, pessoas que eu considero geniais me descobriram, me contrataram e gostaram de mim.

Ainda sou assim otimista acreditando que o mundo é feito de pessoas talentosas – o caso é só que alguns talentos não combinam com você. E você nunca – EU DISSE NUNCA – anote o que estou falando – NUNCA – deve deixar alguém cujo talento você não admira colocar seu talento para baixo.

Tá bom? Agora pode seguir com seu dia, porque esse post foi uma nota mental pra mim mesma.

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Das coisas que não.

Processo de trabalho, processo criativo, organização… isso não se ensina, não se cerceia, não se cobra. Se aconselha e olha lá. Ou você descobre que cada um tem o seu ou vai ficar o resto da vida tentando ensinar peixe a voar.

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Jogo dos sete erros (ou a maldição do quase legal)

Ah, a internet. Nunca vivemos em uma era com tanta referências, com tanta opção e com tanto acesso a gente boa fazendo coisa bonita. O Pinterest, então, traz horas e horas de acesso a festas lindas, ideias de decoração bacana, cupcakes, balões de gás, lousas, tipografia e macarons. Ou seja: com um pouco de talento e uma conexão de banda larga, é impossível fazer alguma coisa ruim.

Será?

Só tem um problema: usar referência também é um dom.

Usar referência do jeito errado, a referência pela referência. É assim que nasce um quase legal. Eu morro de medo do quase legal. Quase legal não é ruim, mas está longe de ficar bom. Quase legal nunca vai ser apontado como cafona, mas gera aquela sensação de “tem alguma coisa no lugar errado”. Quase legal é assustador porque nem sempre aparece no nosso espelho.

Quase legal é a diferença entre isso…

jogo dos sete erros

…e isso:

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Quase legal é a diferença entre isso (o original, Mila’s Daydreams)…

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…e isso:

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Acho que ficou bem ilustrativo, né? : )

E onde o quase legal esbarra? Arrisco que é em parte na qualidade do material, em parte no talento com uma câmera, em parte na tentativa de se traduzir ideias do Hemisfério Norte para outra realidade. Mas o grande esbarrão mesmo, o que faz acabar a boniteza, é a falta de autenticidade.

Note aqui que autenticidade não é originalidade: de repente você pode até copiar alguma boa ideia do Pinterest, ela vai sair bonita na medida em que ela for muito VOCÊ. Se balões no casamento são você, as fotos vão sair muito mais bonitas que balões no casamento de um casal que só aceitou ter balões na festa porque “tá todo mundo colocando no Pinterest e é muito cool”.

É por isso que não tenho nada contra plágio. No fim, a imitação nunca vai ganhar do original. Porque falha na sinceridade.

Alguma coisa é melhor que nada

Ah, então você está aí! Lendo esse blog, deitado em posição fetal, se lamentando porque tem quinhentos projetos dançando dentro da sua mente nesse exato instante, mas nenhum deles parece querer cair fora dela e sair para o mundo.

Então dá cá um abraço. Somos dois. Somos mil, somos milhões.

Acho que pode te fazer bem um parágrafo que a Keri Smith escreveu com dicas para ilustradores que querem expor seu trabalho ao mundo e se tornar conhecidos. Porque a Keri Smith é incrível e eu daria um abraço nela todo dia. O que ela diz é o que se lê a seguir:

“Como uma procrastinadora de mão cheia, acho fundamental adotar uma técnica muito simples: estabelecer pequenas (às vezes, ridiculamente pequenas) metas que eu possa cumprir rápido e facilmente. Acredito que existem 3 grandes barreiras para se lançar ou reinventar uma carreira, e todas elas têm a ver com a nossa percepção da situação, não com a realidade:

  • Sentimos que temos muita coisa pra fazer, e já que não vamos conseguir fazer tudo ao mesmo tempo agora, é melhor nem começar a tentar.
  • Temos expectativas muito irreais do que vai acontecer (tipo ‘quero um emprego na New Yorker semana que vem’), e ficamos desmotivados quando elas não acontecem.
  • Nos sentimos mal porque ficamos nos comparando com o resto do mundo.

O que esquecemos é que a meta, no começo, é apenas começar; ir em frente, em qualquer direção, já está bom. O importante é buscar a sensação de missão cumprida sempre, do jeito que você conseguir, mesmo que seja uma missãozinha mínima (tipo hoje eu lambi um selo). É por isso que adotei um lema recentemente: ‘ALGUMA COISA é melhor que NADA’. “

Leia a matéria inteira aqui. 🙂

Quantos vampiros você conhece?

Concordo e vivo essa dica que o Austin Kleon (de novo ele!) dá neste filminho. Sem endeusar Pablo Picasso só porque ele era um belo artista, Austin fala da tendência que o pintor tinha de sugar a energia dos outros. E de como existe muita gente assim. E de como isso nos faz mal, enquanto criativos, e enquanto gente. A equação é simples: depois de passar uma tarde com alguém, você volta pra casa cheio de pique ou baixo astral e sem energia? Se for o segundo caso, essa pessoa é uma vampira de energia. Corra enquanto é tempo.

 

Social media é uma porcaria.

Rá, adoro títulos bombásticos. Não, não é por aí. A verdade é que trabalho com essa porcaria (não somente com ela, mas também com ela, como qualquer bom profissional que trabalha com web que o valha) desde 2007, quando o termo começou a surgir com mais força no planeta, e já tenho intimidade pra fazer esse tipo de brincadeiras. Melhor reformular: social media (ou mídia social), como é vista por muita gente, é uma porcaria. Mas não devia. Vamos lá:  de 2007 pra cá, muita coisa mudou, inclusive minha opinião em relação às técnicas, criações e possibilidades da tal social media, mas já passei por verdadeiras epifanias do mal nesse mundinho, inclusive fazendo careta quando lia a expressão no meu currículo.

A parte boa é que já estamos amigas novamente. Mal ou bem, a avalanche do Facebook está redesenhando o universo da social media e obrigando as marcas e seus publicitários a pensar mais, caminhando para uma coisa que estou abraçando com carinho: a importância da estratégia de conteúdo e de uma boa curadoria para todas as marcas. Ou muito me engano, ou os hoje ainda tão genéricos analistas de social media vão cada vez mais se dividir entre curadores de conteúdo, planejadores criativos, gerentes de projeto e gerentes de tecnologia para redes sociais. Já falei um pouco disso aqui.

A parte ruim é que encontrei esse texto de 2009, que 3 anos depois, continua fazendo todo o sentido. É um post do Mike Arauz, em que ele conta sua desilusão com a tal social media, e culpa muita gente por essa desilusão.

Ele culpa todo mundo que já se dizia um expert em social media quando ninguém podia sequer começar a imaginar o que social media era e no que ia se transformar.

Ele culpa todo mundo que diz “SOCIAL MEDIA”quando na verdade só está se referindo ao Facebook.

Ele culpa a todos que pedem uma estratégia de social media esperando uma estratégia de mídia de massa mais barata.

Ele culpa a todos que tratam social media como uma disputa de quem tem mais fãs.

(…)

Ele culpa todas as agências que usam o termo social media só para ganhar novos negócios.

(…)

Ele culpa autores que vendem livros vazios e sem conteúdo baseados apenas na popularidade do termo.

(…)

Ele culpa médias-gerências que estão mais interessadas em planos de curto prazo e em fazer o que seu chefe acha legal, que em buscar um plano de longo prazo para o sucesso da empresa.

(…)

Ele culpa todos que convenceram alguém que social media é uma varinha mágica que pode resolver todos os seus problemas de marketing.

(…)

Ele culpa todos que esperam que social media resolva os problemas de um produto medíocre ou um serviço desnecessário.

(…)

E ele culpa a si mesmo por todas as vezes que fez isso.

Já eu culpo mais um grupo: culpo os blogueiros brasileiros, que em nome de interesses financeiros completamente compreensíveis mas completamente mal planejados, destruíram a qualidade de seus conteúdos, transformando a blogosfera brasileira de “alto nível” em uma coisa chata e sem criatividade, uma vitrine de opiniões pasteurizadas assinadas por marcas que não sabem inovar.

É isso! Concorda? Discorda? Não entendeu nada mas acha que ovelhas são bichinhos muito legais?

Vai lá pro blog do moço e leia o texto completo aqui. : )