E depois?

Jean Solé

E depois que você terminar o livro que te preencheu por 20 anos? E depois que ele sair de você, como uma versão daquela você criança, tímida, forçando acenos pra tentar amizades? E depois que ele sair da sua lista de pendências e da sua lista de sonhos por realizar e virar um link aberto ao mundo na Amazon?

E depois?

E depois você se pega tendo que colocar sua playlist Musicals are better than Prozac no último volume para escrever um desabafo (que você jura que é um pedaço de literatura, não desabafo).

Um pedaço de literatura que é mais ou menos assim:

E depois que a história que acabava com você não acaba mais em você, aquela coisa que você sempre sonhou – “agora sou livro, agora sou livre!” – não acontece.

E esse não é um ensaio a respeito de ilusões editoriais. E-mail de rejeição não é nada. Quando nomes desconhecidos enviam um “não nos interessamos, não se adequa, não é bom, não, não, não” aquilo evapora e voa.

A dor do depois dói mesmo com a ausência de e-mails de nomes conhecidos. A dor do depois dói mesmo quando a história, a sua história de fantasia, a sua fantástica história, a sua sementinha com você todo dentro, não brota.

Quando a história nunca se desenvolve porque fica parada na rotina e nas críticas de sua irmã mais velha, aquela que lia livros de fantasia junto com você, vibrando a cada novo capítulo. E de repente você descobre que sua irmã mais velha talvez fosse a única audiência que você tinha em mente a vida toda enquanto escrevia o livro.

Ou quando a história nem começa, perdida na pilha de livros da amiga especialista em literatura fantástica. Ou vai ver ela leu, não gostou e a polidez foi maior que a coragem?

Ou quando a história nunca chega ao fim (será que chegou pelo menos ao meio? será que chegou a algum lugar?).

Aí a história começa a se encolher, menos divulgada, menos acreditada por você, dona da história, mãe da história, talvez até a própria história.

Aí começa: se calhar, toda essa crítica ao início do livro (é verdade, aquele longo e arrastado início do livro) está certa. Se calhar, melhor seria tirar ele da Amazon e reescrever todo o início, logo de uma vez. Se calhar, melhor eu recomeçar a minha história de 20 anos. Nessa toada, lá pelos seus 60 anos você começa sua História.

E a história fica encolhida porque é tonta ou porque apesar de ser uma adulta crescida, ela ainda é frágil (e fragilidade tem idade?). Porque sofre de uma timidez que suas primas menos literárias e mais comerciais, aquelas que vão parar no horário nobre da Globo não sofrem.

Ou… por que ela ouve mais o silêncio do que queria ouvir do que o som, o som lindo e novo do que nasceu?

Porque tem o outro lado dessa história.

Tem a história que desemboca na vida de amigos que estudaram com você no colegial (Ensino Médio? Liceu? Não sei mais), que voltam ainda mais legais do que nos tempos do colegial para ajudar com feedbacks maravilhosos. Tem a história que desemboca na prima de segundo grau com quem você nunca teve muito contato, mas mistério dos mistérios, te seguia desde sempre. E que enquanto você choramingava a falta de leitores, escreveu e publicou um livro infantil muito querido.

E essa história de ouvido seletivo fica lá, querendo se enterrar em você novamente.

Sendo que tem tanta história pra viver.

Aí você percebe que está vivendo a síndrome do E depois?

Depois que você chega lá, e depois?

E depois?

E depois talvez eu vá reescrever o início, na mesma porque sou insegura mesmo e daí e tem coisa pra aparar ali.

E depois?

E depois eu vou continuar a minha história.

casa

21 dias longe de casa, visitando a casa dos pais e o país que chamei de casa por uns 30 anos. Essa coisa de se sentir em casa mas não se sentir em casa mas se sentir em casa e não se sentir em casa e sentir-se casa é especial. É uma coisa meio episódio de Twilight Zone, meio além da imaginação.

Aí cheguei assobiando umas tantas canções de Simon & Garfunkel e com vontade de escrever sobre casa. Sobre casa ser o cheiro que eu escolhi e que ela escolheu junto ao meu guarda roupa, aquela mistura do meu amaciante, do meu sabão de roupa, do meu shampoo, meu sabonete, meu perfume, meus produtos de limpeza, meus, meu, eu. Casa é também minha maquiagem completa, meu guarda roupa completo, sem precisar fazer as contas de quantos vou lavar. Casa é minha geladeira, organizada do meu jeito, sem potinhos misteriosos, com os temperos que eu acredito. Casa é minha hortinha que me esperou na minha vizinha. Casa é meu colchão que pula demais e todas as suas falhas, é aquela gaveta que sempre emperra, aquela fechadura que só a gente sabe abrir e fechar, aquele trinco que tem o tranco certo. Casa são os barulhos da clínica pediátrica aqui na frente, dos passos dos vizinhos, dos horários que já conheço. Casa é minha padaria, minha manicure, minha barraca de feira, as regras que eu conheço no espaço que Deus me deu e que eu ajudei a escolher.

E na viagem eu ganhei uma carteira nova. Que carteira também tem um tanto de casa, né? Os papéizinhos que se guarda (apesar de eu não guardá-los tantos), os louros (eu também não os tenho)… tá, as coisinhas em geral. Na verdade, o que tenho além do básico, na carteira, é uma figurinha, um cromo do Walt Disney com a Sininho. Eu, protestante sem muita reverência a santos (são tantos!), apelidei o meu Walt Disney de “meu santinho”. Coloquei esse santinho na minha carteira uma vez. E ele foi mudando, de carteira em carteira. Nessa última mudança de carteira parei pra olhar pra ele. E percebi o quanto ele está velhinho. Se minhas contas batem, eu carrego esse Disney na minha carteira desde 2003, ano em que eu colecionei o álbum O Mundo Mágico Disney. Era a figurinha número 1. Eu amo álbuns de figurinhas e amo figurinhas número 1. E achei graça. Imagina você, eu carregar o meu santinho irônico há quase 20 anos!

A verdade é que tem nada de irônico nisso, não. Senhor Walt Disney segue me inspirando e essa figurinha ali, ao lado dos meus trocados, sempre me lembra que sonho vale muito.

De vez em quando a vida

Joga o que a gente tem que fazer na nossa cara, porque a vida é a Vida e é assim. Tem uma série de coisas acontecendo pra me lembrar que meu lugar é aqui. Aqui. Nesse blog. Nesse idoso, maravilhoso, gostoso blog que eu iniciei quando tinha uns 15 anos a menos do que tenho hoje, com sonho de ser uma escritora e uma publicitária e uma influenciadora criativa (muito antes do termo influenciador existir… muito antes ainda do termo influenciador virar INFLU).

O sonho já aconteceu faz tempo e como todo sonho ele veio completamente diferente e melhor do que eu pensava.

E aí a vida tá todo dia sussurrando nos meus ouvidos. Que não importa se a internet já não é mais internet, mas um ser que há anos ganhou vida própria e nos devora através de nossas próprias mãos, noite e dia. Que não importa se eu desisti de acompanhar rede social porque não tenho tempo, paciência ou vontade.

Mas meu lugar é aqui escrevendo, sem me preocupar se é vendável se é premiável se é.

Coisas que a vida me vem jogando assim, como se eu nem percebesse:

1. A última rede social que me fazia parar pra postar, o instagram, mudou de cara e morreu pra mim.

2. Uma grande amiga dos tempos áureos do Palitos de Fósforo (que aliás faz aniversário hoje, amiga!) passou por poucas e boas na vida, lançou um livro e me convenceu que esse negócio de ficar esperando a editora certa te descobrir e jogar dinheiro em você é coisa de bocó e que o negócio é escrever ENTÃO ESCREVA.

3. Alguém me passou o contato de uma pessoa que também está morando em Portugal e numa conversa descobri que ele foi o orador da turma de publicidade na faculdade 1 ano depois de mim, e de como meu discurso de formatura marcou ele e a história dos discursos de formatura na Cásper (não foi EXATAMENTE isso que ele disse, mas vocês entendem…).

4. Calhou de eu trabalhar com um novo diretor de criação que era o diretor de criação de um grande amigo também da época áurea do Palitos de Fósforo, e falando sobre esse amigo em comum eu comecei a lembrar daquela Francine que queria criar, falar sobre criar e evangelizar a criação pelo mundo.

4.1 E não que aquela Francine não exista mais, mas vai ver ela estava era muito ocupada mudando (de ideias, de rotinas, de país, ou mesmo mudando fraldas)

5. Já faz mais de ano que eu voltei pro mundo das agências, mas voltei num ritmo que eu amo: no meu. Fazendo projetos pontuais pra agências diferentes, produtos diferentes e gente diferente, sempre. Coisa que me lembrou que se a possibilidade de criar e ser feliz criando (e ganhar dinheiro sendo feliz criando) existir, não importa se essa possibilidade está mascarada de design, de literatura ou de publicidade: é ela que importa.

6. E nesses últimos tempos tenho sentido falta de voltar a absorver conteúdo criativo. Passei os últimos anos comendo conteúdo sobre livros, sobre casamentos, sobre ser mãe. E tinha deletado, talvez num rompante de quem acha que vai romper pra sempre, minha lista de blogs de criação. Hoje, voltei a elas. E me vi aqui de novo.

7. Ah, sim, tem também a terapia, que tá me lembrando constantemente que se eu não escrever por prazer alguma coisa vai ceder e não vai ser bonito.

Então tá bom, vida. Eu vi, vida. Eu escutei, vida. Vem ni mim que eu vou em ti.

Onde estava Willifill em fevereiro de 2008: na página 35

Escrevi um livro por quase 20 anos. Em 2008, ano em que me formei na faculdade, ele estava na página 35 e eu tinha preguiça só de pensar no tanto que faltava. Da página 35 às quase 500 páginas foi preciso muita teimosia, muita coragem… e muita vida vivida. 🙂 

Escrito a 18 de fevereiro de 2008, quando idéia ainda era ideia e a ideia de um final de semana produtivo significava conectar o scanner e escrever duas páginas de um livro:

liguei meu scanner e escrevi duas enormes páginas de Word do meu livro.

Cheia de idéias para discutir aqui também!

Quanto ao meu livro… ele está na página 35 (120 em formato de livro). E está tão no começo, mas tão no começo, que só de pensar tudo o que ainda vem pela frente, dá até preguiça. Avante, coragem, marchemos.

E fui avante, e tive coragem e marchei. Marchei por tudo que veio pela frente. Marchei mais 12 anos, mais 500 páginas (sei lá quantas em formato de livro). Marchei por formatura, empregos, perdas, ganhos, namorado, noivo, marido, filha, mudança de país, pandemia. Em abril de 2020 publiquei o livro na Amazon. Você pode comprá-lo aqui.

Onde estava Willifill em novembro de 2007: estava em busca do disquete perdido

Escrevi um livro por quase 20 anos. Em 2007, ele estava dentro de um disquete… que foi perdido.

Abaixo, um post escrito a 14 de novembro de 2007, tempo em que disquetes já eram muito defasados… mas gravadores de CDs eram o grito da moda:

Então disquetes ainda eram meio difundidos, estávamos em 2005. Primeiro ano da faculdade, sem casa fixa, portanto sem gravador de CDs, e com muitos trabalhos pra fazer.

E naqueles tempos sem pen-drive, não sei qual das vozes na minha cabeça me aconselhou a que eu sempre andasse por aí, não com bloquinhos, mas com um disquete com o livro inteiro dentro da mochila.

Encantada pela modernidade da coisa, fiz isso. Não sei, não pergunte porquê eu simplesmente não o armazenei em um dos meus e-mails, porque muitas coisas na vida não podem ser explicadas.

A menina aqui simplesmente andava por aí com um disquete que continha alguns anos de trabalho, e um selo laranja onde estava escrito o nome do livro e a data de início.

O resto da história você deve ter sacado. Nada que Murphy não faça sem a ajuda de uma urgência, acompanhada de um esquecimento.

Já que computadores de laboratórios da faculdade ainda não contam com um alarme “EI, VOCÊ ESTÁ ESQUECENDO SEU CD, SUA LHAMA!”, sempre há o bom e velho “achados e perdidos” no canto, cheio de trabalhos perdidos para todo o sempre. Até hoje eu ainda passo lá, só pra aliviar minha consciência.

A verdade é que nunca mais o encontrei. Coloquei até anúncio no mural da faculdade, mas nada.

Fico pensando em quem foi que o encontrou. Se chegou a ler, se chegou a entender a importância daquilo. E podia dizer pelo menos se gostou, o maldito. Me encaminhar uma resenha anônima, qualquer coisa que fosse.

Sei que hoje, em algum lugar do Paquistão ou Coréia Comunista, as 15 primeiras páginas de uma versão antiga do meu livro devem constar no topo dos mais vendidos…

Em abril de 2020 o livro ficou pronto e você pode comprá-lo aqui.

Como estava Willifill em 27 de outubro de 2007

Foram 19 anos escrevendo um livro – uns 12 deles registrados nesse blog aqui. Pois é, porque meu blog, outrora chamado Palitos de Fósforo (era toda uma metáfora aos momentos da vida em que a lâmpada da ideia não quer acender e a gente tem que sacar um fósforo), foi meu diário de bordo nesses tempos.

Pouco a pouco, vou republicando os posts em que falo sobre ele. Para inspirar jovens e velhos escritores que estão entalados numa história como eu estive. 

um post de 2007:

6 [quase 7] anos… e ainda tô jovem!

27 de outubro de 2007

eis aí então uma das maiores motivações para a existência desse blog: um livro em processo de criação… desde 19 de fevereiro de 2001. Ou seja, contabilizando hoje mais ou menos quase 7 anos de vida. Menos de vida que de existência, pra ser infelizmente sincera.

nessa data de origem e de criação eu tinha 13 anos. Não lembro bem quando, mas me parece que foi em uma viagem de carro depois de uma noite de sono inspiradora que a idéia pro meu livro (que na real é uma trilogia) surgiu. Surgiu assim, quase que na íntegra.

Agora imagine você quantas vezes essa história foi mudada, remodelada e maquiada na minha cabeça.

Tenho cerca de 15 começos pra história guardados em papel. Todos iguais. Só que escritos de maneira diferente, em anos diferentes. Só pra se ter uma idéia.

Eu acredito que todo esse tempo foi ótimo. Porque faz um ano que eu peguei o jeito, finalmente encontrei um jeito de escrever que pra mim fica muito mais fácil e que está à prova de tempo… leio daí dois meses e ainda gosto. E foi esse ano, veja você, que escrevi metade das 25 páginas que ele tem.

agora, olha bem pra mim, não desistir de um livro de 7 anos e 25 páginas ou é prova de perseverança ou de obsessão.

Ainda quero falar bastante dele por aqui, tem muito material de processo criativo, muito mesmo, e mais ainda de processos de desespero.

Quem viver verá.

E viu. E com capa gentilmente cedida pelo André Hellmeister, filho do artista Tide Hellmeister, que tem muito a ver com a estética que imagino pra Willifill (veja mais obras dele aqui).

Para comprar meu livro, essa belezinha que ficou com quase 500 páginas, acesse aqui: https://www.amazon.com.br/Willifill-Francine-Guilen-ebook/dp/B07Z486656

É isso

O livro ficou pronto e agora não é mais meu, é seu e do universo. Ele ficou pronto porque decidi que ele participaria de um concurso. Terminei a tempo pra me inscrever. Inscrevi. Ele não ganhou o concurso, mas eu ganhei!

Porque terminei.

Isso foi em outubro de 2019. Agora, 6 meses depois, terminei a revisão final. E finalmente E FINALMENTE posso chamá-lo de TERMINADO.

Sabe o que é imaginar como seria esse momento desde 19 de fevereiro de 2001 (dia em que comecei a escrevê-lo)?

Pois é. E se eu contar que foi bem diferente do que imaginei?

Não chorei, não gritei, não emocionei. Terminei ele calmamente e silenciosamente numa madrugada, com medo de acordar minha filha.

E cliquei no botão de publicar aqui no apartamento onde estou morando no Porto, em Portugal.

Pra começar, em 2001 eu não tinha filha e nem sonho de morar fora do Brasil.

Pra terminar, foi maravilhoso.

E VOCÊ PODE COMPRÁ-LO AGORA AQUI NA AMAZON.

Agradeço de montão.

Feliz.

Fran.

Coxinha, sopa de batata e a bebê que nasceu ignorando todos os protocolos: um relato de parto feliz – por alguém que odeia relatos de parto

NOTA DE CABEÇALHO: comecei a escrever esse post dia 26 de março e consegui terminá-lo hoje, 11 de abril. Taí um dos quatrocentos mil aprendizados desse negócio de maternidade: o entendimento de que é necessário reaprender a viver. Pois as coisas demoram muito, mas muito mais do que o previsto. Pior (pior?): NÃO EXISTE PREVISTO! 🙂

Nós na maternidade!

A Rebeca nasceu dia 20 de fevereiro de 2018, às 6h14 da manhã. Acho gostoso escrever esse horário, assim, porque é das coisas daquela manhã que mais ficaram tatuadas na minha mente: o médico falando com voz calma um simples “nasceu” numa entonação que em uma palavra dizia “pronto, viu como foi rápido?” e a enfermeira logo em seguida dizendo “seis e catorze”. Lá em cima, um relógio digital vermelho marcava esse horário. Seis e catorze. Foi um momento de paz depois de uma correria maluca. Maluca, engraçada e feliz. Minha filha enrolou 41 semanas para sair de dentro de mim, mas quando o trabalho de parto começou ela não quis enrolar muito não. E perigou nascer no meio do caminho para o centro cirúrgico. Minha maluquinha.

Então foi assim: às seis e catorze do dia vinte de fevereiro minha pequena nasceu, boom, fácil, sem crise, sem drama – sem nada do que todo mundo previu por mim.

POR QUE DECIDI ESCREVER MINHA HISTÓRIA – UM PREÂMBULO TODO CHEIO DE VEJA BENS:

Primeiro, é importante dizer duas coisas:

Dei sorte. Muita sorte. Ganhei na loteria. Meu parto foi fácil, o trabalho de parto durou, se muito, 8 horas, sendo que dor mesmo eu senti durante umas duas horas – e dor extrema uma meia hora (a média desse processo todo para quem vai ter o primeiro filho dizem que é de 12 horas – sendo que tenho amigas que demoraram mais de 24 horas). Então não quero que esse texto sirva para que eu pareça mais especial que outras pessoas que tiveram partos menos maravilhosos. No máximo, fui mais sortuda.

– Eu odeio relatos de parto. Esse nome – “RELATO DE PARTO” – já me irrita. Parece uma forma de transformar em regra, em sigla, em nome técnico uma coisa que poderia simplesmente ser “gente, senta aqui, deixa eu contar como foi a história do nascimento da Rebeca!”. Chamar esse tipo de narrativa com esse nome formal – “RELATO DE PARTO” – é o resumo do que sinto que vem acontecendo com o movimento do parto humanizado: algo que era pra ser simples, bonito, realista e que acabou virando um circo cheio de siglas, novas regras e um romantismo utópico que fica lindo e dramático nas redes sociais. A cada foto de doula extremamente investida em postar foto no instagram de “partos que saíram exatamente como a mãe sonhou” eu penso que isso aí tá muito errado. Porque parto exatamente como a mãe sonhou É MENTIRA. Às vezes ele pode ser pior do que a mãe sonhou… e às vezes melhor! Mas exatamente como sonhou é balela.

Isto dito, vamos para meu PORÉM – e sempre tenho poréns na manga – PORÉM, eu quis escrever o meu “relato de parto” porque acho que a internet precisa dele. Quando eu estava grávida achava interessante ouvir histórias de partos, especialmente de amigas e conhecidas – e também ler algumas coisas na internet para ver as diferentes experiências de cada pessoa. Mas quase nenhuma das histórias que li ou ouvi me passaram mensagens positivas. Todo o resto me passou preocupação, desconforto, medo… ou uma fantasia de controle sem precedentes. As pessoas com quem eu conversava ao vivo sempre terminavam com um desanimador “pode ser que você tenha que fazer cesárea”. E os partos que eu encontrava na internet parece que eram escritos majoritariamente por mulheres cujo sonho da vida era ter parto normal, natural, sem anestesia. Para isso, passaram a gestação inteira pesquisando em detalhes todos os procedimentos que poderiam ser feitos durante o parto, todos os malefícios da anestesia e desenhando o plano de parto ideal, tentando controlar o incontrolável. E adivinha: ou o controle não funcionava e o relato era todo cheio de frustrações – ou o controle TAMBÉM NÃO funcionava, mas o parto parece que foi a coisa mais linda, limpa e plena do mundo. E… vamos combinar, gente. Parto tem mais sangue que filme gore. E cocô.

Enfim, depois de divagar bastante, o resumo é: quero que esse meu “relato de parto” positivo inspire algumas mulheres e mostre que parto pode sim ser bom. Vai ter dor, vai ter sangue e vai ter cocô. Vai ser real. E pode ser bom.

COMO FOI ESCOLHER QUEM ME ACOMPANHARIA NESSE PROCESSO:

Então, em junho de 2017 eu descobri que estava grávida. E minha busca foi por um médico e um hospital que tivessem o meu jeito de pensar: que priorizassem o parto normal – como coisa normal que ele é, e não porque OH MEU DEUS EU PRECISO QUE MINHA FILHA NASÇA DE PARTO NORMAL OU NÃO SEREI MULHER O SUFICIENTE – mas não fosse radical para nenhum dos lados.

Antes de encontrar meu obstetra amado do meu coração, passei por dois extremos: primeiro, fui a um médico que disse, literalmente, que minha bebê tinha um PROBLEMA. O problema era que ela iria nascer no meio do carnaval, e isso era ruim para A AGENDA DELE. Quase pediu para eu marcar uma cesárea na primeira consulta. Além de outros problemas que tive com ele, que pediu exames errados, todo seguindo condutas que não se aplicavam a mim e quase me mataram de desespero quando fiquei com a impressão de que eu tinha perdido a bebê. Médico que está mais preocupado com o pacote pro Rio que comprou pro carnaval e que só sabe seguir condutas robotizadas? Fugi.

Depois, fui a uma médica que enchia a boca a cada vez que falava as palavras “parto humanizado”. Segundo ela, sua intenção era que eu tivesse meu bebê “como nossas avós”. Para isso, bastava eu pagar 15 mil reais para ela (além do plano de saúde, claro) e sua equipe de pessoas incríveis, que inclusive davam WORKSHOPS para eu aprender a parir. Tipo, IGUALZINHO NOSSAS AVÓS. Tratar uma coisa “natural” com todo esse drama? Nada natural pra mim. Fugi também.

Aí uns Googles depois, encontrei o Doutor José Vicente Kosmiskas, que atendia pelo meu plano da Amil – e além de ser uma figura, na primeira consulta me disse a frase que me fez decidir que ele seria o médico que ajudaria a Rebeca nascer: “Atendo desde gestantes que querem ter o bebê com cesárea marcada, unha feita e cabelo escovado até gestantes que querem ter o bebê no meio da sala de casa (nesse caso ele não vai até a casa da pessoa, mas fica de plantão). Afinal, quem está grávida e vai decidir o que quer é a paciente, não eu”. Quase dei um abraço nele naquele momento. ERA ISSO!

O acompanhamento inteiro com o Doutor Vicente de fato seguiu isso: um médico que não seguia condutas de praxe cegamente (ou, em bom português, SEM CAGAÇÃO DE REGRAS), nem ficava me falando o que ia ou não acontecer a cada semana. Com ele, eu era obrigada a viver o presente, sem pensar na próxima semana. A cada “isso é normal, é coisa de grávida, vai piorar, mas vai passar quando a bebê nascer” eu ficava louca, mas ao mesmo tempo ficava super feliz e tranquilizada. E sim, tudo piorou e sim, tudo passou quando a bebê nasceu. 🙂 Mais um adendo positivo sobre o Dr. Vicente: ele não cobrou ABSOLUTAMENTE NADA extra para fazer o parto, uma atitude que deveria ser normal, mas é tão rara em médicos de convênio (a maioria costuma cobrar pelo menos uns 4 mil reais como “taxa de disponibilidade”) que vale deixar registrado aqui. Ele é médico do São Luiz do Itaim Bibi, aqui em São Paulo  que, graças a Deus, meu plano cobria e seguia tudo o que eu queria para um parto, o mais humanizado possível dentro de um hospital, com a equipe explicando e perguntando sempre antes de fazer qualquer procedimento.

Se eu puder dar uma dica nesse rolê todo é: se tiver a oportunidade, procure médicos e hospitais/clínicas que combinam com seu jeito de pensar. Aí já é 90% do caminho andado.

A ESPERA:

A espera é treta. Passei a gravidez saudável, mas incomodada com as dores e enjoos… e, pior, a E X P E C T A T I V A. Tudo o que eu queria era que a gravidez acabasse logo (eu achei muito chato estar grávida). Já na semana 37, que é a semana em que a bebê já está madura o suficiente para nascer sem ser prematura, eu deixei as malas para a maternidade prontas, falei pra minha mãe vir em casa e entrei em alerta. Vivia para notar se aparecia alguma contração. Afinal, “poderia ser a qualquer momento agora”.

E adivinha? Nunca era. A semana 37 se passou. E a semana 38. E chegou a semana 39, que foi a semana gestacional em que os dois filhos da minha irmã nasceram, então eu tinha certeza que a Rebeca nasceria também! E… nada de Rebeca. E chegou a semana 40, com a tal “data prevista para o parto”, que era dia 11 de fevereiro. Aí a família já tava fazendo bolão, os amigos mandando mensagens cheias dos “e aí???”… e aí absolutamente nada. E eu limpava a casa, e andava (confesso que pouco, porque tinha muitas dores) e comia gengibre e tentava todas as técnicas para induzir o parto. Mas nada acontecia. E foi aí que foi ficando cada vez mais claro o quanto as coisas não são assim tão certinhas quanto a gente prevê ou espera.

Quando virou a semana 40, meu médico me perguntou o que eu queria fazer. Muita gente desiste e decide fazer uma cesárea pra resolver o problema logo nessa altura.  E entendo, porque começa a ficar muito cansativo. Naquela altura, as roupinhas da nenê já tinham sido lavadas há tanto tempo que eu estava quase pensando em lavar de novo!

Vale dizer que é praxe os médicos esperarem até no máximo 41 semanas e 6 dias – e caso o bebê não decida nascer sozinho, é necessário induzir o parto. Eu não queria induzir o parto por duas razões bem bestas e nenhuma delas era muito naturalista, não: uma, simplesmente porque ouvia histórias de horror sobre indução (OBRIGADA, RELATOS DE PARTO SUPERABUNDANTES NA INTERNET!!!). E a outra… a outra é uma confissão: verdade é que quanto mais real a possibilidade de parir, mais medo eu tinha da hora chegar. No fundo, no fundo, pra mim era melhor que a nenê continuasse lá dentro. Apesar do meu tamanho, apesar do cansaço. Assim, decidi esperar a bebê resolver sair sozinha.

Passadas 40 semanas, meu médico me orientou a começar a ir no hospital dia sim, dia não para acompanhar a situação do bebê. E virou rotina. Dia sim, dia não, eu e o Julio pegávamos o carro, com as malas dentro, rumávamos para o São Luiz e íamos ver como a Rebeca estava. Virou até um programinha. A gente ia, fazia os exames, via que ela estava bem, passava no berçário, ficava babando nos bebês alheios, tomava um café e voltava pra casa. Com cara de alface, falando para minha mãe e respondendo os whatsapps das amigas ansiosas. “Ainda nada”.

Chegou a semana 41 e finalmente eu comecei a subir pelas paredes. Comecei a mandar mensagem para todas as amigas que já tinham passado pela gravidez, comecei a achar que a fase da gravidez NUNCA IA ACABAR, que eu estava num episódio de Twilight Zone e que eu nunca iria ter a minha bebê, que ficaria grávida para sempre! No domingo à noite (dia 18 de fevereiro, uma semana depois da data prevista do parto) eu chorei copiosamente. Estava completamente cansada. Pensem vocês que eu sou a senhora-planilha. Minha bebê atrasar a entrega assim era o fim da picada! Mas o mais cansativo mesmo era o tal do “é a qualquer hora agora”. Eu tinha todo o plano já esquematizado na minha cabeça. Eu tinha anotado no meu celular o seguinte esquema:

“Contrações começaram? Esperar 1 hora para ver se estão ritmadas. Ligar para a Catarine (Catarine é minha prima enfermeira obstetra que eu queria que ficasse comigo em casa enquanto eu esperaria as contrações firmarem até a hora de ir para o hospital). Após 3 horas, ligar para o médico. Após 6 horas ir para o hospital. 6 horas depois da entrada no hospital a bebê vai nascer.”

Eu sabia, no fundo, que não seria EXATAMENTE assim. Mas a louca do controle precisava ter algo para se basear. E eu andava com esses horarinhos anotados na cabeça. FORAM TRÊS SEMANAS acordando e indo dormir olhando para o relógio, fazendo as contas e pensando “bom, se as dores começarem agora, até as tal horas a bebê vai nascer”. Eu fingia que não, que estava de boas. Mas por dentro eu estava repassando esse “cronograma” de hora em hora na cabeça. Fora que quase não saía de casa, afinal, “vai que a bolsa estourasse”.

Daí que o grande problema, pra mim, era o medo do imprevisível: quando eu começaria a sentir as dores? Eu estaria onde, fazendo o quê? Como elas seriam? Quando eu deveria ir para o hospital? Afinal eu não queria chegar muito cedo e perigar ficar 20 horas peregrinando no hospital até a bebê nascer.

Até que veio o grande desprotocolo que foi o nascimento da Rebeca, que riu desses meus medos e dessas anotações no meu celular. E nasceu assim:

O DIA EM QUE ELA TEVE QUE NASCER

Quando virou a semana 41, minha decisão, sempre planilhada e meio medrosa, era esperar chegar a quinta feira, dia de consulta com meu médico, para decidir alguma coisa. Caso ela não nascesse até lá, faria o que ele me recomendasse. Deus me livre decidir algo antes disso, vai que ela nasce (haha). Mas aí A VIDA. Chegou segunda feira. Mais um dia em que acordei sem contração, sem nada. E lá fui eu, bela e formosa (e desolada e cansada e ansiosa) para mais uma das visitas de rotina no hospital. Até me despedi dos meus pais (que estavam em casa) falando um irônico “bom, até daqui a pouco”.

Chegando no hospital às 16h, junto com o Julio, fomos para a via-sacra de sempre: tococardiograma – um exame em que você ouve o coração do bebê pra ver se ele está bem. Ela estava bem. Depois, mais um ultrassom. Vinha sendo sempre assim: eu fazia esses dois exames, depois a rotina era sentar junto com o Julio na sala de espera, ver o médico de plantão ligar para o meu médico e esperar ouvir o tradicional “ok, liberada”. Aí eu tomava um café e ia embora pra casa.

Só que daquela vez foi diferente. Quem foi até a sala de espera foi a médica, que, em vez de me liberar, disse a frase que marcou a mudança da minha vida: “seu médico quer falar com você”. Ela me passou o telefone. Foi quando o doutor Vicente me disse que, segundo o informaram, o ultrassom mostrava que o líquido (acho que o amniótico, mas não fui das grávidas que decorou todos os nomes técnicos, como você deve ter reparado) estava reduzindo. Na opinião dele, o ideal seria tentar induzir o parto. E ele queria saber o que eu queria fazer. Eu, literalmente, tremi. MAS COMO ASSIM VAI SER AGORA AIMEUDEUS FORAM SÓ 41 SEMANAS DE ESPERA EU NÃO ESTOU PRONTA. Minha resposta, a mais imbecil e mais real do mundo foi: “mas eu tenho que responder agora?”. Sim, eu tive. Toda a procrastinação, minha e da bebê, deveria acabar lá, naquela ligação. Eu até poderia ter decidido responder que não ia induzir, que ia tentar esperar mais um pouco… mas naquele momento, toda a minha noite anterior chorando e me sentindo em um episódio de Twilight Zone voltou à minha cabeça. Perguntei para o Julio o que ele achava. Perguntei para o meu médico o que era, de fato, induzir. Ele me explicou e deixou claro que a partir do momento em que eu topasse fazer a indução, eu daria entrada na internação e só sairia do hospital com minha bebê no colo. Eu gelei. Eu topei.

Voltei com as pernas bambas para a sala de espera, sem saber que eu tinha topado a melhor decisão da minha vida. Assim que a adrenalina passou, entrei no modo empolgação e no “modo aeroporto”. Explicando: “modo aeroporto” é o modo em que eu entro quando tenho que encarar uma viagem longa de avião. Isso porque acho um saco viajar de avião, sei que tenho que passar por quatrocentos procedimentos chatos e várias horas de canseira em um lugar desconfortável. Mas aí entro no “modo aeroporto”, que é simplesmente encarar todos os procedimentos e confiar na capacidade alheia, sabendo que chegarei do outro lado cansada, suja, zoada… mas provavelmente sã, salva e muito feliz. E devo dizer: o meu modo aeroporto caiu como uma luva nessa situação do parto.

A primeira coisa que fiz? Subi até o café e comi uma coxinha. Explico: eu tinha dois grandes medos muito práticos nesse negócio de parto. Um era passar fome. O outro era ficar muitas horas sem tomar banho. Sim, são duas coisas que acabam comigo. Daí a escolha pela coxinha. Em seguida, desci e esperei calmamente (e até empolgada) o Julio dar a entrada na documentação para a internação. Quando eu recebi um saquinho para guardar minha aliança e meus brincos e peguei a documentação assinada, calma, tranquila, sem dores e serena eu fiquei extremamente feliz. Porque durante toda a gravidez imaginei esse processo da entrada no hospital acontecendo às pressas, em meio a muitas dores. E lá estava eu, de boas, assinando minha internação.

Na recepção, assinando os papéis da internação.

Mesmo o medo da indução passou assim que eu me dei conta que estava em um hospital excelente, com uma equipe que não me forçaria a fazer nada do que eu não quisesse. E no meu modo aeroporto, me forcei a estar pronta para imprevistos. E, claro para SENTIR DOR. Fato é que nessas horas, o que conta é a gente. Enquanto esperava a entrada na internação, caí na besteira de ligar para minha irmã, que ficou super preocupada e me recomendou que eu escolhesse ir para a cesárea direto, porque “indução era complicadíssimo e provavelmente eu teria que fazer uma cesárea, de qualquer maneira”. Vai vendo. Por sorte e por intuição segui em frente com o que me parecia o melhor.

COMO FOI ESSA TAL DE INDUÇÃO?

Depois de comer a coxinha, assinar a internação e de eu passar por uns exames prévios, eu e o Julio fomos instalados em um quarto gostosinho, que parecia quarto de hotel, onde rolou o procedimento da indução. Nele, esperaríamos até que eu estivesse com uns 7 centímetros de dilatação. E aí, depois dessa etapa, eu iria para a sala de parto em si – e desde o início eu insistia que queria ir para a sala mais humanizada do hospital, toda chiquetosa, com bola de pilates, banheira, aromaterapia e luzinhas no teto. Aliás, uma das grandes preocupações minhas era que essa sala não estivesse vaga quando chegasse a minha hora de parir. Ah, tolinha.

Como era de se imaginar, antes de mais nada, as duas coisas que perguntei à enfermeira foram: posso comer? (afinal, coxinha não é janta, não é mesmo, minha gente?) e posso tomar banho? Sim e sim. Boas notícias! De banho tomado, sou outra pessoa. E alimentada, então, vixi! Ouvi histórias de gente que é colocada em jejum assim que se interna, e isso para mim seria o fim do mundo. Aí tomei banho e coloquei meu pijama (aquele que estava esperando há umas 3 semanas na mala), enquanto a enfermeira pedia meu jantar. Me senti chique comendo uma sopa de batata sem a menor graça, mas com o sabor da última refeição que eu faria antes de ter a Rebeca do meu lado.

O quarto!

A sopa de batata!

Banho tomado e jantada, hora de colocar o comprimido lá embaixo (óbvio, não sei dizer o nome do comprimido que colocaram). A enfermeira foi uma fofa, me ensinando um monte de exercícios e truques respiratórios para amenizar as dores quando elas viessem. E ela foi bem clara: o remédio poderia demorar até 24 horas para pegar. Ela voltaria de tempos em tempos para ver como eu estava e de 6 em 6 horas ela reaplicaria o remédio, se fosse necessário. Eram 22h30 da segunda feira, dia 19. No meu modo-aeroporto, respirei fundo e me preparei psicologicamente: pode ser que eu fique aqui, com dores, até às 22h30 de amanhã. Tô com meu livro? Tô com sopa de batata na barriga? Tenho TV? Tenho instagram? Acima de tudo, tenho uma cama confortável e marido do lado? Vamos nessa. Rumo a 24 horas de perrengue.

E aí foi só esperar as dores. Quando digo que indução foi a melhor coisa que me aconteceu falo sério. Porque metade do meu estresse tinha a ver com “como seria essa fase das contrações”, quem estaria comigo, quando eu iria para o hospital, como seria andar os 30 ou 40 minutos de carro até o hospital com dores e todos os medos que acompanham esses pontos de interrogação. Tendo que fazer a indução, a resposta para todas essas dúvidas era: vai ser agora, é só esperar, você está num hospital com uma equipe pronta para atender qualquer problema. Fiquei de boas lendo um livro, vendo o celular e assistindo às Olimpíadas de Inverno. A partir da meia noite, as dores começaram a aparecer, pouco a pouco, ritmadas. Na hora combinada, a enfermeira voltou para ver como andava minha aderência ao remédio e SURPRESA: ele tinha pegado de primeira! Umas 3 horas da manhã eu já estava com uns 5 centímetros de dilatação. Não precisou aplicar uma segunda vez. Agora era só esperar e orar (o que eu fiz bastante nesse processo, inclusive) para que tudo progredisse bem.

Fiquei animada, mas evitei me empolgar com grandes expectativas. Afinal, são muitos os casos que já ouvi de quem estaciona em 5 cm de dilatação e o negócio não evolui. Mas as dores cada vez mais fortes diziam o contrário. Quando a dor estava num ponto em que eu não conseguia mais focar no livro, decidi acordar o Julio (que dormia como um anjinho na cama ao lado) e chamar ele para dar uma volta pelo hospital pra eu me distrair das dores. Entre uma contração e outra, passeamos pelo corredor do andar, vendo os enfeites de porta e os nomes dos bebês que formariam a geração da Rebeca. Nisso, decidi tomar uma ducha quente, porque a dor tava começando a apertar. Deviam ser quase umas 5 horas da manhã. E a partir daí, o negócio foi louco.

A BEBÊ QUE IGNOROU OS PROTOCOLOS

A ducha começou aliviando, mas alguns minutos depois o efeito dela não pegou mais. Eu voltei para a cama, porque estava começando a ficar muito desassossegada e a vontade era de sair correndo, mudar de posição a cada segundo, saracotear. Como tinha medido a dilatação não fazia muito tempo (e provavelmente não contava que a evolução seria tão rápida), a enfermeira voltou para o quarto e insistiu comigo: uma duchinha de 10 minutos não ia funcionar. Ela falou que eu tinha que tomar uns 40 minutos de ducha, falou para eu ligar uma musiquinha e pediu para levarem meu café da manhã para o quarto.

Achando que todos estavam loucos, mas disposta a colaborar, liguei uma música clássica no primeiro aplicativo que achei e entrei na ducha novamente. Tudo que posso dizer é que o café da manhã nunca chegou. Ao som de alguma música clássica muito pesada (não lembro qual era, mas era tipo Cavalgada das Valquírias, imagine a cena), eu tentava relaxar na ducha. Pobre de mim. Alguns minutos de ducha e eu saí correndo para a privada com uma vontade louca de FAZER FORÇA. Sim, fui dessas loucas que confundem parto com cocô. Foi ali, pelada, sentada no vaso, (como podem ver, no auge da plenitude e poesia), que me liguei que tinha alguma coisa muito errada (ou muito certa) acontecendo. Nessas horas valeu ter lido bastante sobre o processo inteiro do parto, porque entendi que essa hora de sentir vontade de fazer força deveria acontecer no final do trabalho de parto… e se aquilo fosse verdade, eu não deveria estar ali. Assim, antes que minha bebê nascesse na privada, falei para o Julio correr para avisar a enfermeira que algo diferente estava acontecendo. Foi naqueles minutos que levaram pra enfermeira aparecer que eu lembro de dizer pro Julio que eu não ia dar conta. Naquele momento a dor estava realmente forte – e eu ainda nem estava na tal sala chiquetosa do parto humanizado. Eu já estava achando que aquela dor ia durar horas e horas – e eu não via como seria possível aguentar aquilo.

E aí eu descobri que aquela dor não ia durar horas e horas… porque a bebê estava quase nascendo! Depois de a enfermeira conseguir me fazer deitar para medir a dilatação, a coisa foi muito louca. Eu entrei em algum happy-place na minha cabeça, virei uma Francine em estado primitivo, focada em resolver um problema, que se resumia a apenas uma necessidade na minha vida: FAZER FORÇA. E eu fiz força no corredor e fiz força no elevador e fui fazendo força em todo o trajeto (que foi feito com a equipe empurrando a maca, literalmente, CORRENDO). Enquanto isso acontecia, eu só lembro de frases que ia escutando. E é assim que vou continuar esse relato, descrevendo o que eu ouvia ao meu redor.

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ENFERMEIRA [ao terminar o exame de toque, com voz um pouco mais tensa do que seria o esperado]: Sua dilatação já está em 8 centímetros! Na verdade… 8 pra 9. Bem… você (se dirigindo ao Julio) vai para a sala colocar a roupa para acompanhar o parto. Agora.

JULIO: Vou de pijama mesmo? Ou posso trocar pelo menos a bermuda?

ENFERMEIRA: Se você trocar a bermuda você pode perder o nascimento da sua filha. Alguém traz uma maca?

ALGUÉM COMPLETAMENTE DESAVISADO, COM UMA CADEIRA DE RODAS: Oi, eu vim preparar a gestante para…

ENFERMEIRA: É UMA MACA QUE EU PRECISO. NÃO VAI DAR PARA IR DE CADEIRA!

JULIO: Fran, olha, me disseram que é pra você vestir isso aqui…

EU: Aaaaghhhhhgmmmmmff

ENFERMEIRA: Põe de qualquer jeito, vamos!

OUTRA PESSOA: Mas não é melhor antes trocar o lençol? Andar no corredor com todo esse sangue…

ENFERMEIRA: VAMOS EMBORA!

[DE ALGUMA MANEIRA MÁGICA EU CONSIGO ME TELEPORTAR DA CAMA E IR PARA A MACA. E FOI A SENSAÇÃO DE GIRAR E GIRAR E GIRAR E EU DISSE BERENICE, SEGURA, NÓS VAMOS BATER. (sério, a sensação de ver o teto correndo deitada numa maca em alta velocidade pelo hospital é muito divertida).]

E, NO TRAJETO:

PESSOAS: Oh não! (eu sei que ninguém diz oh não na vida real, mas é licença poética) Vai nascer no elevador!

ENFERMEIRA: Para de fazer força! Para de fazer força!

EU: [fazendo força]

CORTA PARA A ENTRADA DA SALA DE PARTO:

PESSOA SEM ROSTO: Vamos trocar ela de maca?

ENFERMEIRA: Não, não dá tempo, vai nascer no corredor!

E AÍ EU SEI LÁ SE TROQUEI DE MACA OU NÃO, MAS DEVO TER ENTRADO NA SALA E AS VOZES CONTINUAVAM:

VOZ DO ALÉM: Vixi, menina. Duas forcinhas, já nasce.

TODO MUNDO: Cadê o médico dela? Alguém ligou pro Doutor Vicente?

TODO MUNDO: Chama um plantonista, gente, não vai dar tempo.

OUTRO ALGUÉM COMPLETAMENTE DESAVISADO: Oi, você vai querer anestesia?… Ela vai querer anestesia?

EU: ????????!!!!!!!!!!

TODO MUNDO: Não vai dar tempo de anestesia. ONDE ESTÁ O MÉDICO?

UMA VOZ, CLARAMENTE FINGINDO TRANQUILIDADE: Alô… oi, tudo bem? O doutor Vicente já chegou?… [para todos]: Ele está se trocando, gente.

– SILÊNCIO TENSO –

VOZ DO ALÉM: 

TODO MUNDO: 

EU: 

JULIO:

DOUTOR VICENTE [na maior tranquilidade do mundo, distribuindo beijinhos]: Oi gente, bom dia, tudo bom? Oi Fran! Ah, a Fran não sabe nem quem ela é agora, já já te cumprimento direito, Fran. [olha para o lugar de onde Rebeca sairia (a rainha dos eufemismos, né?)]: Fulana, já chama o pediatra.

EU: Agggggggggggghhhhhhmmmpf

DOUTOR VICENTE: Fran. Fran! Abre o olho. Olha pra mim.

EU: …………… O_O

DOUTOR VICENTE: Na próxima contração, você puxa suas pernas assim: \-o-/

VOCÊ: AI FRANCINE QUE NOJO, PRA QUE SER TÃO GRÁFICA????????

(Desculpe, cara pessoa que me lê. Mas é um relato de parto, você esperava o quê? POESIA?)

PRÓXIMA CONTRAÇÃO: oi

EU: Agggggggggggghhhhhhmmmpf

TODO MUNDO: Vai!

 

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E foi. E foi assim. A próxima – e última – dor veio. E eu senti vontade de fazer a maior força da minha vida (só lembro de pensar NÃO IMPORTA O QUE SAIR AQUI, PODE SAIR ATÉ MEU RIM, MAS ESSA NENÊ VAI SAIR). E saiu. De uma vez só. Sem aquele momento de filme, sabe? Do “já estou vendo a cabecinha, empurra mais um pouco!”. Nada. Rebeca saiu de uma vez só. Zás trás. E então…

E aí voltamos para o início do post, com o “nasceu” e o “6h14”. As duas frases mais gostosas de ouvir da minha vida. Lembro também da dor sumindo instantaneamente, do quentinho que foi sentir a minha filha no colo e do meu médico brincando comigo, perguntando se aquele era o parto do meu quarto filho, de tão fácil que foi. Segundo ele, foi mais difícil me convencer a dar entrada no hospital do que fazer o meu parto. E toda a equipe de enfermagem ficou comentando o quão fácil tinha sido.

Foi fácil? Eu não sei, só sei que foi assim. Claro, tem uma série de procedimentozinhos depois, liberar a placenta, tomar uns pontos porque as coisas realmente são intensas e blá. O pós-parto é uma mistura de loucuras e muito choro. Mas o parto, o nascimento em si… foi assim.

E quando eu estava plena (estava PLENA DE ADRENALINA, chapadona) com minha bebê no meu peito, toda ensanguentadinha e fofinha, senti mais um quentinho surgindo em cima de mim. E descubro que, como gratidão por nascer, minha filha tinha feito cocô em mim. <3

Depois que tudo passou, quando ficamos na sala um tempo só nós três (eu, Julio e nenê), olhei em volta, finalmente. E descobri que no fim das contas eu acabei tendo minha filha na tal sala de parto humanizado, chiquetosa. A banheira e a bola de pilates estavam lá, me esperando. E não serviram para nada. 😀 Minha prima, a que ia me acompanhar em casa durante as contrações? Ficou sabendo que a bebê nasceu via whatsapp. Todos os planos e medos? Também não serviram para nada!

Enfeite de porta feito pelo papai e pela vovó <3

E onde eu quero chegar com isso tudo?

Minha mãe teve a primeira filha com a ajuda de fórceps. Teve depressão pós parto. Foi um processo complicado. Minha irmã se safou da depressão, mas também precisou da ajuda de fórceps no nascimento da primeira filha. Com razão, as duas morriam de medo do meu parto – e no fundo, no fundo, eu esperava que algo parecido acontecesse. Seria muita sorte minha mãe e minha irmã precisarem de fórceps no primeiro bebê e eu não. Por que eu me safaria? Não sei. Mas me safei.

O que aconteceu foi quase que o oposto de tudo o que eu esperava. A Rebeca demorou mais semanas do que eu queria para nascer… e demorou muito menos horas do que eu esperava para nascer. Ela não ligou para os protocolos do hospital, não se importava em nascer na sala chique do parto humanizado ou no corredor. Ela não esperou chegar meu café da manhã. Ela simplesmente veio. Quantas vezes durante a gravidez me peguei desconfiada porque meu médico disse que não gostava de fazer plano de parto. Quantas vezes discuti com amigas se “o certo” seria pedir anestesia ou não… só pra na hora nem ter a opção de pensar nisso, porque foi essa doideira linda toda. Minha nenê que não segue protocolos não se importava com nada disso.

E foi isso que a Rebeca me ensinou até agora: a vida não segue protocolos. A vida encontra um meio. E se a gente deixar é geralmente o melhor meio possível.

Nossa primeira selfie, quando recebemos alta.

Saindo do hospital!

indo pra casa, rumo à vida!

O POST PODERIA ACABAR ASSIM, MAS VOU SER SINCERA:

Pra falar a verdade, adoraria dizer que ela me ensinou isso e que agora sou imune a tentativas de controle e viverei minha vida muito mais iluminada e livre! Mas qual nada. A luta para sobreviver a essas primeiras 7 semanas de bebê imprevisível em casa está me ensinando que a luta não tem fim. Que eu amo controle, amo padrões e fico louca sem eles.

Mas a gente tenta aprender sempre.  E assim vamos, sobrevivendo e reaprendendo a viver. 🙂

Quase 1 mês depois, no retorno ao médico!

NOTA DE RODAPÉ: Meu livro começou a ser escrito num dia 19 de fevereiro. Minha filha nasceu dia 20 de fevereiro (sendo que dei entrada no hospital no dia 19 de fevereiro). Não é mágico????

Será esse o último post antes da bebê dar o ar de sua graça?

Hoje o médico disse que é bom essa nenê nascer logo logo – e provavelmente em menos de 1 semana vou conhecê-la! Fiquei aqui pensando que se ela puxar minha outra cria (o livro que estou escrevendo desde 2001), a coitada vai procrastinar por mais uns 15 anos aqui dentro. Exceto que isso não será possível, então eu só agradeço à organicidade da natureza e sua superioridade ante a autossabotagem humana.

E umas fotinhos do quarto dela que ficou pronto ontem, pra ver se inspira a criança! É só chegar, até a cama tá posta, nenê! A mamãe (também) tá morrendo de medo, mas a gente aprende a fingir que dá conta rapidinho! Prometo!