Como criar a história perfeita, em sete passos

Nem sempre é bom escrever usando fórmulas, mas sempre é bom escrever dando uma olhadinha nessas coisas de vez em quando, pra ver se tem alguma coisa desarredondada na coisa toda. Se arredondar for melhorar a experiência do leitor, não vejo porquê não dar uma arrumadinha. Eu mesma tinha uma dúzia de personagens sem motivação no meu livro. Só recentemente é que percebi como é legal dar uma razão de ser e um crescimentozinho pra quase todos os personagens no decorrer da história. Afinal, não é só o protagonista que merece passar por uma transformação na vida. : )

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Retirado daqui

Sem fôlego – e curta nossa fanpage!

Dia desses, falaram que meu livro é de tirar o fôlego. Quer dizer, meu narrador é um maluco que não para de falar e divaga e mete parênteses e colchetes e chaves por tudo quanto é canto. Eu mesma, nas minhas revisões, acabo lendo tudo atropleado e fico perdida facilmente, se não fixar bem a leitura. Às vezes penso que se os beatniks fizeram, por que não eu e às vezes eu penso AH DEUS TENHO QUE COMEÇAR TUDO DE NOVO.

Às vezes bate vontade do nada de ler Ítalo Calvino.

E de sorvete também.

Ah, aliás. Ando navegando por muitos blogs ruins e vendo que eles ganham muito dinheiro. E, vendo que não é nesse mundo que quero criar meus filhos.

Por isso, decidi fazer propaganda no meu blog também. Portanto, se você for uma empresa que vende algum produto relacionado a processos criativos, tá fácil, tô aqui.

Droga. Devia ter virado blogueira de moda.

Sei lá, senhor analista de redes sociais, abstrai, se você vende café já serve. Café dá mais vontade de criar, por exemplo. Chocolate também. Uma viagem pra Paris, então, vixe, inspiraria um processo criativão.

Tá, eu ainda tenho uma alma. Mas criei uma fanpage, porque também sou humana. Caso você não tenha sido bombardeado pelo meu convite pessoal via Facebook, aqui vai o link: palitos de fósforo no Facebook.

Grata, que vem de graças que parece gracias e acabei de descobrir.

(dedico esse post ao meu pai, que disse que meus blogs não são mais engraçados como o eram antigamente. Beijo, papai, também te amo).

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O livro que você não pode colocar na sua “pilha de livros para ler”

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Porque essa pilha de livros para ler é uma das coisas da vida que são assustadoras, que vão se acumulando, prontas para serem devoradas por nós,  com jeitinho, na verdade, de que nos devorarão. A minha fica dentro do meu guarda-roupa e já está quase saltando pra fora, inda mais agora que resolvi reler Os Miseráveis depois de 10 anos (e continua bom, viu?). Aí que a DraftFCB criou uma campanha em prol de novos autores, incentivando nós, leitores, a ler mais rápido e parar de empilhar livros pela vida.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas pra mim deviam era fazer um desses pra escritores. Já pensou? Um software que apaga seus escritos se você demorar mais que 12 anos pra escrever? Ia ser muito sucesso.

 

 

medo de nunca terminar.

Meu livro, é! Fiz aqui uma lista das coisas que a gente faz com um livro que não termina:

  1. Coloca na herança pro filho terminar e ele que faça um bom trabalho.
  2. Chama a Zíbia e continua o trabalho mesmo depois de morta.
  3. Bota fogo. Fogo em você mesma, só de raiva.
  4. Manda enterrar junto com você. Com a seguinte inscrição: esse ano eu termino.
  5. Pede pra publicarem mesmo assim, igual aquele Castelo daquele mala do Kafka que me fez ler um livro chato e inteiro para terminar assim sem mais nem

Ou um dia alugo uma cabana na montanha e escrevo e escrevo e escrevo em uma febre de 5 dias até terminar a coisa toda. Que, minha gente, já tem 12 anos de idade. É um adolescente! É um mardito adolescente gritando no meu computador e sacudindo a porta do meu armário!

Mas vejam vocês se não encontrei uma banda russa sucesso que tem o mesmo nome completamente inventado do meu livro:

 

E uma foto no Pinterest que é a cara de uma das minhas personagens:

rebeca

Sobre escrever e ouvir

abandoned-piano

Engraçado que uso muito música no ouvido enquanto escrevo no trabalho “normal”do dia a dia. Mas na hora de escrever meu livro, costumo fazer isso no silêncio. Exceto em uma parte, que é a parte do meu livro que comecei mesmo agora: a parte mais “do mal” dele.

É, é que meu livro tem uma parte mais ou menos do bem e uma mais ou menos do mal. A parte do bem vai que vai sem trilha – acho que é pra eu conseguir ouvir meu euuuuuu profundo melhor. Já a do mal parece que flui melhor com a música certa. Parece que ela pede um certo clima pra ser escrita de forma sincera. Hoje, por exemplo, ela foi escrita ao som de Andrew Bird, que achei que combina com o cenário que imagino para essas cenas mais pam pam pans.

Uns exemplos:

Um parágrafo legal num post okay :)

“Of course, the point is writing is hard. To write is to struggle with your sanity, at times. And there will be bad days and you will feel defeated. This work is more difficult than climbing a mountain because you are doing it in the dark. I want to urge you to keep going. You matter and your words matter. By writing, you are saying to God I agree with you, you gave me a voice and the gift was not in vain. By writing, you are showing up on the stage of life rather than sitting in the comfortable theater seats (there is a time for both) and are casting your voice out toward an audience who is looking for a character to identify with, somebody to guide them through their own loneliness, no matter how transparent or hidden that loneliness is.”

Retirado daqui.

workhard

 

Dia 19 faz 12 anos que comecei.

Então quer dizer que no próximo dia 19, faz 12 anos que comecei a escrever meu livro.

DOZE fucking anos.

Sabe o que é isso? Sabe o que é começar com uma ideia aos 13 anos de idade e não desistir dela até hoje? Começar com uma ideia antes de sequer começar o colegial, e resolver continuar com ela mesmo hoje, 5 anos de formada na faculdade, com uma vida quase minha. Isso significa alguma coisa. Significa que eu sou teimosa, ou lenta, ou, melhor: que essa história precisa ser contada, de uma maneira ou de outra.

Fucei na minha pasta Willifill empoeirada aqui e encontrei alguns presentes para celebrar a data.

O que me assustou é que a versão final do meu livro, a que eu sigo escrevendo até hoje, começou a ser escrita em 2004. Mesmo a versão mais recente já tem 9 anos. Puxa. Estou feliz. : )

A primeira página da primeira versão, em 19 de fevereiro de 2001:

susto2

Algumas curiosidades: nesta época, Sandro e Manfredo eram os protagonistas da história. Seus apelidos: Sam e Fredo. E não, eu nunca tinha sequer ouvido falar nos personagens de Senhor dos Anéis na época. Outra: 4 anos depois desses escritos, nasceu a filha do meu tio Sandro. Seu nome? Lívia.

A primeira página da versão final, em 10 de outubro de 2004:

odeio

Um desenho (terrível) que fiz do livro em algum momento inicial destes 12 anos:

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E talvez a triste razão pela qual eu demore tanto, trazida à luz pela protagonista de minha antiga tirinha, em 2008:

sustao

 

Fala que nem gente!

pato

Também não quero que meus personagens fiquem falando coisas que ninguém falaria na vida real. Claro que rola um pequeno rococó literário ali e aqui, mas queria mesmo que eles falassem que nem gente. Acho que é por isso que enrosco tanto. Mas acho que tô gostando. Tenho até um capítulo feito inteirinho de diálogos.

Quer espiar? Será que mostro? Ah, pode ver, vai.

“O sorvete de flocos está deixando minha voz narrativa rouca e preciso resolver alguns negócios. A esta altura, nossos personagens já podem caminhar e falar sozinhos.

Eu volto.

Ei, é sério.

CAPÍTULO 14

( )

-Ai.

-AI.

-Me ajuda a levantar.

-Ai minhas costas. Cadê aquele sol babaca? Ele me paga.

-Olha o estado do meu tênis. A sola quase derreteu.

-Olha o nosso estado. Olha o estado desse lugar. Olha pra cima.

-Cadê meus óculos?

-Eu sei lá cadê seus óculos, cadê minha casa é a minha pergunta.

-Ah, tá aqui, quase que você pisou.

-Acho que tou vendo menos que você.

-…

-Hmn,

-!

-Que?

-Mas você tá vendo tudo isso, Pedro?

-Eu tou fingindo não ver, que assim fica mais fácil, ok?

-Seu babaca, não finge que não tá vendo, que eu sei que você tá vendo, até muito melhor do que eu, porque você não tem miopia, nem astigmatismo e eu sei que isso que eu tou vendo é real, mais real até do que tudo que já vi na vida, é tipo Matrix. …Você… você tá vendo, né?

-Já disse, eu

-Descreve pra mim. Sério. Pra ver se não é tipo um efeito daquele papiro que só eu vejo.

-Como assim descrever, você vai dar essa moleza pro narrador enquanto ele tá lá todo malandro tomando um sorvete?

-Que?

-Nada.

-Tá, seu maluco, tô vendo tudo sim, o céu, com essa cor louca que eu nunca vi na minha vida, e esse monte de construções, e todas essas cores. Nunca vi tanta cor junta nem em desfile de carnaval. E, cara, essas construções são MUITO legais. E essas… pessoas cercando a gente, com uma cara esquisita…

-Não consigo entender se eles tão bravos, sorrindo ou rindo.

-Na dúvida eu sairia correndo.

-Eu também. Aquilo é uma cabine telefônica?

-Olha, tem o formato de uma, mas aqui não tem muita cara de que se usa telefone. Tipo, que operadora alcançaria aqui? Só se for uma daquelas alternativas, olha, eu acho que eles estão bem perto, um deles inclusive tá encostando o dedo no meu nariz.

-Espera só eu colocar meu tênis.

-Ok.

-CORRE.

– “

-Arf.

-Arf arf.

-Parece que eles não gostam de cabine telefônica. Boa, Pedro!

-Ótima, Sandro. Agora me conta como é que foi que você descobriu aqui.

-Você viu tudo acontecendo, seu crustáceo, não fui eu que DESCOBRI aqui.

-Eu muito menos

-Você não tá curioso?

-CURIOSO, SANDRO?

-Mas

-Peraí.

-Peraí?

-É. Tá confuso aqui.

-Aqui onde, Pedro?

-Na minha cabeça.

-Ãh?

-É. Eu nunca achei que fosse um conservador provinciano de uma figa. Tudo bem que nunca fui muito favorável à juventude sexo, drogas e rock and roll, gosto de dormir cedo ouvindo jazz e confesso que uso pantufas do Patolino até hoje… mas nunca desconfiei. Eu sou um covarde! E estou um tiquinho assim, ó, só um tiquinho assim, assustado. E quero sair daqui.

-Daqui da cabine telefônica ou daqui daqui?

-Daqui daqui, é! Sandro, cara, a gente nem sabe que que é isso. Não é como daquela vez em que você desejou ser órfão só pra ficar mais parecido com o Luke Skywalker. Não é como daquela vez em que criaturinhas que se reproduziam ao ser molhadas infestaram a sua casa.

-Aquele não fui eu.

-Não importa. Isso aqui é uma viagem meio perigosa, Sandro. Não quero nem ver a ressaca que isso vai dar.

-…

-Não venha pro meu lado com essas reticências! É sério! E eu devia estar entregando leites em Plátanos agora. Tem noção de quanta gente vai ficar sem café da manhã hoje de manhã?

-Umas 10?

-Não subestima meu trabalho, Sandro. … Pelo menos umas trinta.

-Enquanto isso, o entregador de leite deles tá preso dentro de uma cabine telefônica dentro de uma cidade esquisita. Ué, não é leg…

-Uma comunidade alternativa.

-Uma comunidade alternativa?

-Uma comunidade hippie colorida esquisita. Isso aqui, Sandro, sabe o que que é isso aqui? Aaaaah, já entendi tudo. Sabe o que é isso aqui? A gente tá dentro da sua cabeça.

-Ah, agora a gente tá dentro da minha cabeça?

-É sim, você me fez tomar tipo aquela pílula, sabe? Aquela pílula que o cara daquele filme tomou? Como é mesmo o nome? Lembrei! É Viagem Insólita dentro do seu cérebro. E eu tou todo aqui, virando amiguinho dos seus cerebelos.

-Pedro. Eu não tenho tanta imaginação assim.

-Ah, não tem… Não tem, mesmo. É, isso é verdade. Acho que eu tou tendo tipo um ataque histérico.

-Eu estava tentando não te dizer isso…

-Acho que eu preciso lavar meu rosto. Será que essa galera bebe água?

-Gente esquisitinha, né?

-Mas me parecem simpáticos, até.

-Isso até é.

-Não têm cara de que iam matar uma mosca.

-Não. Inclusive aquele ali está andando com uma mosca numa coleira ou o quê?

-Onde?

-Aquele. Ao lado daquela menina com aquele coque maior que a cabeça dela.

-Ah. Nossa. Gatinha ela.

-Gatinha estranha.

-Das melhores. Cadê o cara com a mosca?

-Ali, do lado do cara tomando sorvete de flocos.

-O que está vindo pra cá?

-É, carregando uma placa.

-Ele tá olhando pra gente?

-Parece. O que tá escrito na placa?

-Ih, não consigo ver.

-Ele tá escondendo o rosto.

-Haha. Vai lá, esquisitão.

-Cala a boca. Ele vai ouvir. Ó, tá escrito Capítulo alguma coisa.

-Será que ele é tipo aqueles homem-sanduíche daqui do mundo bizarro?

-Peraí, tô conseguindo ler agora. Tá escrito

CAPÍTULO 15

Vendo, Troco e Revendo desemaranhamento mental”

The Paris Review – Jorge Luis Borges

Então comecei uma busca pessoal pra fazer uma coisa que adoro fazer: ler entrevistas. : )

Em breve espero comprar a coleção da Paris Review, mas enquanto $não rola$ (preciso contar como mudei minha relação com dinheiro depois de aguns desesperos e de fazer um job para o Itaú [que você pode ver aqui]), comecei a ler pela internet, mesmo. Vou lendo e tentando compartilhar com você os highlights de algumas entrevistas. E vou colocar em português, porque sou legal.

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Aqui vão alguns trechos de uma entrevista com Jorge Luis Borges, autor de quem espero muita coisa mas ainda li pouco.

“(quando publiquei meu primeiro livro) eu queria encontrar cada uma das pessoas que o compraram para pedir desculpas pelo livro e também agradecer por terem comprado.”

”Acho que melhor que chocar as pessoas é encontrar conexões entre coisas que nunca foram conectadas antes”.

“Considero Mark Twain um dos escritores mais geniais, mas acho que ele mesmo não sabia muito bem disso. E talvez para escrever um livro realmente bom, o ideal é que você não saiba disso, mesmo. Você pode sofrer escrevendo e trocar adjetivo por adjetivo, mas vai escrever melhor se deixar os erros. Lembro do que Bernard Shaw disse sobre ‘estilo’: um escritor tem tanto estilo quanto estiver convicto dele – e nada mais. (…) Se um escritor não acredita no que ele escreve,  não deve esperar que seus leitores acreditem. (…) Existe a tendência de tratar qualquer tipo de escrita (…) como um concurso de estilo. (…) Aprende-se a escrever como quem joga xadrez (…) e a maioria (dos escritores de hoje) – menos uns quatro ou cinco, talvez – pensam que a vida não guarda nada de poético ou misterioso. (…) Eles sabem que têm que escrever, e então, bem, (vestem o chapéu de escritor e) mudam para seu tom triste ou irônico de sempre.”

“(Um escritor não deve ser julgado pelas suas ideias, mas) pelo prazer que ele dá e pelas emoções que ele causa.”

“Conrad diz que quando alguém escreve, mesmo de modo realista, sobre o mundo, está escrevendo uma história fantástica – porque o mundo em si é fantástico e grandioso e misterioso, e acho que ele estava certo.”

“Acho que um poeta tem 5 ou 6 poemas para escrever e não mais que isso. (Depois), ele fica tentando reescrevê-los sob diferentes ângulos e talvez diferentes temas, eras ou personagens – mas os poemas são essencialmente os mesmos”.

Sobre um problema com o qual me identifico um pouco:

“Quando um escritor é jovem, sempre acha que o que vai escrever é bobo ou lugar comum, então tenta esconder isso embaixo de ornamentos barrocos, palavras do século 17; ou, se não, se tenta ser moderno, faz o contrário: inventa palavras o tempo todo (…). Então, conforme o tempo passa, ele sente que suas ideias, boas ou ruins, devem ser expressas sem firula, porque se você tem uma coisa na cabeça tem que colocar essa ideia (ou esse sentimento, ou sensação) de um jeito direto na cabeça do leitor.”

“Parece que a primeira coisa que um autor jovem quer fazer é mostrar aos leitores que ele possui um dicionário e que conhece todos os sinônimos do mundo”.

Sobre Shakespeare:

“Mas ele vai lá, com suas metáforas e sua pompa, porque ele é pomposo. Até na famosa frase das últimas palavras de Hamlet, ‘E o resto é silêncio’. É meio boba essa frase; não é impressionante. Não acredito que alguém diria algo assim”.

E um trecho sobre colaboração criativa, que se aplica muito ao processo criativo da publicidade, com as duplas de criação, e tem muito a ver com o que eu penso e já experimentei:

“Às vezes, o co-criador é quase um rival seu. Ou, pelo contrário, ele é tímido e cortês, e se diz alguma coisa que você discorda, ele logo se intimida e retira o que disse. (…) Ou você propõe algo e ele diz ‘Maravilhoso!!!’. Isso não pode acontecer. (…) Não existe perder ou ganhar. Existe uma história a ser contada, juntos.”

Leia o original completo aqui.