Colocando o livro na planilha

Hoje escrevo aqui pra contar pra vocês (mas principalmente para a Francine do futuro, e provavelmente um futuro muito próximo) que no andar da carruagem as melancias se ajeitam. Parei de trabalhar oficialmente no início de dezembro e demorou – porque demora mesmo, especialmente se você tende a se autossabotar e se você tem milhares de coisas para resolver – mas finalmente consegui pegar a rotina do livro pelas orelhas e cuidar dela. E digo que agora falta colocá-la na planilha e transformar essa planilha em cronograma para cumprir a meta de terminar o livro da minha vida em maio de 2018.

Acho muito engraçado (ou trágico?) que eu tenha tanta disciplina para fazer cumprir rotinas, mas não tenha bastante força de vontade (ou vergonha na cara?) para cumprir cronogramas caso eu não tenha um compromisso assinado com alguém e/ou um pagamento logo em vista. Nem (ou muito menos?) se o compromisso assinado for comigo mesma.

O que dizer?

Humor inglês é uma coisa tão inglesa, mas tão inglesa que toma chá de monóculo e não liga pra você. E não adianta a gente tentar: humor inglês em português já fica ruim. Sei disso, porque já li uns par de livros de gente que, inspirado pelo cinismo dos ingleses, cria uns personagens lotados de frases sarcásticas e atitudes blasé, que… bem, que não levam eles a lugar nenhum aqui no Brasil. Sei disso, porque quando eu era jovem e comecei a escrever meu livro, meus personagens adoravam sacar piadas inteligentinhas e ácidas da manga em momentos impróprios. E quando reli aquilo, parecia mais falso que amiga invejosa elogiando seu sapato. Era bobo. Chato, até.

Aí com o tempo fui aprendendo, aprendendo que pelo menos pra mim escrever tentando imitar o Douglas Adams é besteira e desfuncional, que um cavaleiro que diz Ni não tem apelo sem o desafino britânico que só quem é tem. Aprendendo que humor brasileiro também é lindo, e o Auto da Compadecida, e Guimarães Rosa, e Machado de Assis, meu deus, que gente bacana e engraçada.

Digo isso porque estou lendo o livro do Hugh Laurie. Não, não o House, porque me recuso a lembrar dele como o House. Este Hugh Laurie aqui.

hugh-laurie-woman

O cara é tão legal. E vai fazer show aqui. E não vou :(. E escreve bem.

Sobre o livro, pois: a tradução é meio duvidosa e os erros de português tiram uma boa parte da sua paciência ao ler o livro, mas o jeito que ele escreve, além de inglês até a ponta do sapato polido, é engraçado. É um narrador que fala besteira, que esquece de narrar o livro, que divaga. E gosto porque foi só criando um narrador assim que consegui escrever meu livro finalmente.

E percebi que já peguei uma influenciazinha dessa leitura ao enfiar um “aí” aí no meio dessa frase. Não sou uma escritora de escrever aís. Mas gostei desse aí aí.

“Era uma coisa assim, meio barroca. Pedro suava e criava, criava e ousava, aí criava coisas novas de novo. ”

E, isso dito, vou voltar para meu livro. 🙂

Eu sei

Eu sei que faz uns par de dias que não atualizo direito aqui. MAS FAZ AINDA MAIS TEMPO QUE NÃO ESCREVO MEU LIVRO. Então, com vossa licença, tenho um livro para escrever pelos próximos 22 minutos (sim, escrever na agência no horário do almoço é produtivo e legal).

🙂

Sem fôlego – e curta nossa fanpage!

Dia desses, falaram que meu livro é de tirar o fôlego. Quer dizer, meu narrador é um maluco que não para de falar e divaga e mete parênteses e colchetes e chaves por tudo quanto é canto. Eu mesma, nas minhas revisões, acabo lendo tudo atropleado e fico perdida facilmente, se não fixar bem a leitura. Às vezes penso que se os beatniks fizeram, por que não eu e às vezes eu penso AH DEUS TENHO QUE COMEÇAR TUDO DE NOVO.

Às vezes bate vontade do nada de ler Ítalo Calvino.

E de sorvete também.

Ah, aliás. Ando navegando por muitos blogs ruins e vendo que eles ganham muito dinheiro. E, vendo que não é nesse mundo que quero criar meus filhos.

Por isso, decidi fazer propaganda no meu blog também. Portanto, se você for uma empresa que vende algum produto relacionado a processos criativos, tá fácil, tô aqui.

Droga. Devia ter virado blogueira de moda.

Sei lá, senhor analista de redes sociais, abstrai, se você vende café já serve. Café dá mais vontade de criar, por exemplo. Chocolate também. Uma viagem pra Paris, então, vixe, inspiraria um processo criativão.

Tá, eu ainda tenho uma alma. Mas criei uma fanpage, porque também sou humana. Caso você não tenha sido bombardeado pelo meu convite pessoal via Facebook, aqui vai o link: palitos de fósforo no Facebook.

Grata, que vem de graças que parece gracias e acabei de descobrir.

(dedico esse post ao meu pai, que disse que meus blogs não são mais engraçados como o eram antigamente. Beijo, papai, também te amo).

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O livro que você não pode colocar na sua “pilha de livros para ler”

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Porque essa pilha de livros para ler é uma das coisas da vida que são assustadoras, que vão se acumulando, prontas para serem devoradas por nós,  com jeitinho, na verdade, de que nos devorarão. A minha fica dentro do meu guarda-roupa e já está quase saltando pra fora, inda mais agora que resolvi reler Os Miseráveis depois de 10 anos (e continua bom, viu?). Aí que a DraftFCB criou uma campanha em prol de novos autores, incentivando nós, leitores, a ler mais rápido e parar de empilhar livros pela vida.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas pra mim deviam era fazer um desses pra escritores. Já pensou? Um software que apaga seus escritos se você demorar mais que 12 anos pra escrever? Ia ser muito sucesso.

 

 

medo de nunca terminar.

Meu livro, é! Fiz aqui uma lista das coisas que a gente faz com um livro que não termina:

  1. Coloca na herança pro filho terminar e ele que faça um bom trabalho.
  2. Chama a Zíbia e continua o trabalho mesmo depois de morta.
  3. Bota fogo. Fogo em você mesma, só de raiva.
  4. Manda enterrar junto com você. Com a seguinte inscrição: esse ano eu termino.
  5. Pede pra publicarem mesmo assim, igual aquele Castelo daquele mala do Kafka que me fez ler um livro chato e inteiro para terminar assim sem mais nem

Ou um dia alugo uma cabana na montanha e escrevo e escrevo e escrevo em uma febre de 5 dias até terminar a coisa toda. Que, minha gente, já tem 12 anos de idade. É um adolescente! É um mardito adolescente gritando no meu computador e sacudindo a porta do meu armário!

Mas vejam vocês se não encontrei uma banda russa sucesso que tem o mesmo nome completamente inventado do meu livro:

 

E uma foto no Pinterest que é a cara de uma das minhas personagens:

rebeca

Sobre escrever e ouvir

abandoned-piano

Engraçado que uso muito música no ouvido enquanto escrevo no trabalho “normal”do dia a dia. Mas na hora de escrever meu livro, costumo fazer isso no silêncio. Exceto em uma parte, que é a parte do meu livro que comecei mesmo agora: a parte mais “do mal” dele.

É, é que meu livro tem uma parte mais ou menos do bem e uma mais ou menos do mal. A parte do bem vai que vai sem trilha – acho que é pra eu conseguir ouvir meu euuuuuu profundo melhor. Já a do mal parece que flui melhor com a música certa. Parece que ela pede um certo clima pra ser escrita de forma sincera. Hoje, por exemplo, ela foi escrita ao som de Andrew Bird, que achei que combina com o cenário que imagino para essas cenas mais pam pam pans.

Uns exemplos:

Dia 19 faz 12 anos que comecei.

Então quer dizer que no próximo dia 19, faz 12 anos que comecei a escrever meu livro.

DOZE fucking anos.

Sabe o que é isso? Sabe o que é começar com uma ideia aos 13 anos de idade e não desistir dela até hoje? Começar com uma ideia antes de sequer começar o colegial, e resolver continuar com ela mesmo hoje, 5 anos de formada na faculdade, com uma vida quase minha. Isso significa alguma coisa. Significa que eu sou teimosa, ou lenta, ou, melhor: que essa história precisa ser contada, de uma maneira ou de outra.

Fucei na minha pasta Willifill empoeirada aqui e encontrei alguns presentes para celebrar a data.

O que me assustou é que a versão final do meu livro, a que eu sigo escrevendo até hoje, começou a ser escrita em 2004. Mesmo a versão mais recente já tem 9 anos. Puxa. Estou feliz. : )

A primeira página da primeira versão, em 19 de fevereiro de 2001:

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Algumas curiosidades: nesta época, Sandro e Manfredo eram os protagonistas da história. Seus apelidos: Sam e Fredo. E não, eu nunca tinha sequer ouvido falar nos personagens de Senhor dos Anéis na época. Outra: 4 anos depois desses escritos, nasceu a filha do meu tio Sandro. Seu nome? Lívia.

A primeira página da versão final, em 10 de outubro de 2004:

odeio

Um desenho (terrível) que fiz do livro em algum momento inicial destes 12 anos:

susto1

E talvez a triste razão pela qual eu demore tanto, trazida à luz pela protagonista de minha antiga tirinha, em 2008:

sustao

 

Fala que nem gente!

pato

Também não quero que meus personagens fiquem falando coisas que ninguém falaria na vida real. Claro que rola um pequeno rococó literário ali e aqui, mas queria mesmo que eles falassem que nem gente. Acho que é por isso que enrosco tanto. Mas acho que tô gostando. Tenho até um capítulo feito inteirinho de diálogos.

Quer espiar? Será que mostro? Ah, pode ver, vai.

“O sorvete de flocos está deixando minha voz narrativa rouca e preciso resolver alguns negócios. A esta altura, nossos personagens já podem caminhar e falar sozinhos.

Eu volto.

Ei, é sério.

CAPÍTULO 14

( )

-Ai.

-AI.

-Me ajuda a levantar.

-Ai minhas costas. Cadê aquele sol babaca? Ele me paga.

-Olha o estado do meu tênis. A sola quase derreteu.

-Olha o nosso estado. Olha o estado desse lugar. Olha pra cima.

-Cadê meus óculos?

-Eu sei lá cadê seus óculos, cadê minha casa é a minha pergunta.

-Ah, tá aqui, quase que você pisou.

-Acho que tou vendo menos que você.

-…

-Hmn,

-!

-Que?

-Mas você tá vendo tudo isso, Pedro?

-Eu tou fingindo não ver, que assim fica mais fácil, ok?

-Seu babaca, não finge que não tá vendo, que eu sei que você tá vendo, até muito melhor do que eu, porque você não tem miopia, nem astigmatismo e eu sei que isso que eu tou vendo é real, mais real até do que tudo que já vi na vida, é tipo Matrix. …Você… você tá vendo, né?

-Já disse, eu

-Descreve pra mim. Sério. Pra ver se não é tipo um efeito daquele papiro que só eu vejo.

-Como assim descrever, você vai dar essa moleza pro narrador enquanto ele tá lá todo malandro tomando um sorvete?

-Que?

-Nada.

-Tá, seu maluco, tô vendo tudo sim, o céu, com essa cor louca que eu nunca vi na minha vida, e esse monte de construções, e todas essas cores. Nunca vi tanta cor junta nem em desfile de carnaval. E, cara, essas construções são MUITO legais. E essas… pessoas cercando a gente, com uma cara esquisita…

-Não consigo entender se eles tão bravos, sorrindo ou rindo.

-Na dúvida eu sairia correndo.

-Eu também. Aquilo é uma cabine telefônica?

-Olha, tem o formato de uma, mas aqui não tem muita cara de que se usa telefone. Tipo, que operadora alcançaria aqui? Só se for uma daquelas alternativas, olha, eu acho que eles estão bem perto, um deles inclusive tá encostando o dedo no meu nariz.

-Espera só eu colocar meu tênis.

-Ok.

-CORRE.

– “

-Arf.

-Arf arf.

-Parece que eles não gostam de cabine telefônica. Boa, Pedro!

-Ótima, Sandro. Agora me conta como é que foi que você descobriu aqui.

-Você viu tudo acontecendo, seu crustáceo, não fui eu que DESCOBRI aqui.

-Eu muito menos

-Você não tá curioso?

-CURIOSO, SANDRO?

-Mas

-Peraí.

-Peraí?

-É. Tá confuso aqui.

-Aqui onde, Pedro?

-Na minha cabeça.

-Ãh?

-É. Eu nunca achei que fosse um conservador provinciano de uma figa. Tudo bem que nunca fui muito favorável à juventude sexo, drogas e rock and roll, gosto de dormir cedo ouvindo jazz e confesso que uso pantufas do Patolino até hoje… mas nunca desconfiei. Eu sou um covarde! E estou um tiquinho assim, ó, só um tiquinho assim, assustado. E quero sair daqui.

-Daqui da cabine telefônica ou daqui daqui?

-Daqui daqui, é! Sandro, cara, a gente nem sabe que que é isso. Não é como daquela vez em que você desejou ser órfão só pra ficar mais parecido com o Luke Skywalker. Não é como daquela vez em que criaturinhas que se reproduziam ao ser molhadas infestaram a sua casa.

-Aquele não fui eu.

-Não importa. Isso aqui é uma viagem meio perigosa, Sandro. Não quero nem ver a ressaca que isso vai dar.

-…

-Não venha pro meu lado com essas reticências! É sério! E eu devia estar entregando leites em Plátanos agora. Tem noção de quanta gente vai ficar sem café da manhã hoje de manhã?

-Umas 10?

-Não subestima meu trabalho, Sandro. … Pelo menos umas trinta.

-Enquanto isso, o entregador de leite deles tá preso dentro de uma cabine telefônica dentro de uma cidade esquisita. Ué, não é leg…

-Uma comunidade alternativa.

-Uma comunidade alternativa?

-Uma comunidade hippie colorida esquisita. Isso aqui, Sandro, sabe o que que é isso aqui? Aaaaah, já entendi tudo. Sabe o que é isso aqui? A gente tá dentro da sua cabeça.

-Ah, agora a gente tá dentro da minha cabeça?

-É sim, você me fez tomar tipo aquela pílula, sabe? Aquela pílula que o cara daquele filme tomou? Como é mesmo o nome? Lembrei! É Viagem Insólita dentro do seu cérebro. E eu tou todo aqui, virando amiguinho dos seus cerebelos.

-Pedro. Eu não tenho tanta imaginação assim.

-Ah, não tem… Não tem, mesmo. É, isso é verdade. Acho que eu tou tendo tipo um ataque histérico.

-Eu estava tentando não te dizer isso…

-Acho que eu preciso lavar meu rosto. Será que essa galera bebe água?

-Gente esquisitinha, né?

-Mas me parecem simpáticos, até.

-Isso até é.

-Não têm cara de que iam matar uma mosca.

-Não. Inclusive aquele ali está andando com uma mosca numa coleira ou o quê?

-Onde?

-Aquele. Ao lado daquela menina com aquele coque maior que a cabeça dela.

-Ah. Nossa. Gatinha ela.

-Gatinha estranha.

-Das melhores. Cadê o cara com a mosca?

-Ali, do lado do cara tomando sorvete de flocos.

-O que está vindo pra cá?

-É, carregando uma placa.

-Ele tá olhando pra gente?

-Parece. O que tá escrito na placa?

-Ih, não consigo ver.

-Ele tá escondendo o rosto.

-Haha. Vai lá, esquisitão.

-Cala a boca. Ele vai ouvir. Ó, tá escrito Capítulo alguma coisa.

-Será que ele é tipo aqueles homem-sanduíche daqui do mundo bizarro?

-Peraí, tô conseguindo ler agora. Tá escrito

CAPÍTULO 15

Vendo, Troco e Revendo desemaranhamento mental”

título do livro.

Taí um assunto difícil.

Se tem uma coisa que me incomoda é livro cujo título é falado por um dos personagens no meio da história. Acho bobo.

Mas daí eu sou boba também.

Sei lá. Melhor terminar o livro e depois deixar o nome vir sozinho, tipo palhaço. : )

Por enquanto é Willifill. Ou Cuidado com o chão entre o trem e o vão (em inglês, GAP THE MIND, PLEASE).

Ou batata.

In Praise of the Potato_lrg

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