um “it gets better” para criadores

hoje é dia do escritor

O que me faz pensar. Quando vou parar de me apresentar como Francine publicitária e me apresentar como Francine escritora?

Uma questão de mudança de substantivos (ou de adjetivos, se eu for boa ou ruim o suficiente)? Uma questão de mudança (ou melhoria) de espírito?*

Vamos comemorar a data escrevendo nossos livros?

(ou tem coisa melhor pra fazer?)

 

*

 

 

Puxa, e eu nem contei!

Li o livro The Writer’s Block (ainda vou falar dele aqui), e foi ótimo.

Ótimo porque além de dar várias dicas para escritores incompetentes como eu (era até pouco tempo), ele me abriu os olhos para o seguinte: em todas as páginas do livro, está implícito que pra você ser um escritor, tem que escrever todos os dias, como uma rotina.

Ou seja, dentre as 786 dicas do livro, não existe a dica: Tente escrever todos os dias. Não. Pro autor, é óbvio que você escreve todos os dias, e se não escreve é porque teve um bloqueio. E precisa se livrar disso.

Deste livro em diante, estou indo dormir mais tarde, mas com a sensação de dever cumprido. Não fico mais 4 meses sem tocar no meu livro lamentando minha falta de tempocriatividadepaciênciaorganização.

Agora escrevo todo santo dia meia página do meu livro (ou melhor, dos 3 que estou escrevendo). Às vezes me irrita porque parece que estou escrevendo forçada e que a qualidade do texto cai um pouco, mas só a sensação dos livros estarem vivos e crescendo, e a sensação real de que eles vão ter um fim afinal, me deixam feliz.

É isso.

não há desculpas.

duas páginas que não são

Sem revisão, sem preciosismos literários, sem ler pela terceira vez. Esse era o começo do meu novo livro, A Confraria. Só existe essa página e meia. Aí desencanei.

Desencanei do formato, mas não da história. esse livro está virando um roteiro. Divirtam-se, isso vai custar caro daqui uns anos:

Tudo começou com menos de 140 caracteres.

Um iluminado momento na redação. Fred tinha travado no meio da matéria sobre luminárias exóticas. Por sorte, já ganhava o suficiente para levantar sem ficar vermelho quando isso acontecia. Não precisava fingir estar digitando no Word, ou navegando aleatoriamente de blog em blog, numa busca inútil por fontes. Ninguém ia acreditar que o blog daquele famoso colunista esportivo iria ter alguma informação sobre luminárias, de qualquer forma. Ainda assim, minimizou todas as janelas, para ver seu desktop. Limpo, eficaz. Fundo branco, sem logo de time, foto da namorada ou frase do autor preferido. Desktop era para mostrar os ícones. Muitos deles, inclusive. Organizados por uma lógica que Fred preferia não explicar a ninguém. Levantou, com a caneca de café na mão. Olhou pela janela, trânsito, o sol acabava de se por, naquele bonito laranja que sinalizava poluição. Bebeu um gole. Gelado, de novo. Ia sempre para a cafeteira, enchia a caneca de café, e na ânsia de sair digitando, acabava esquecendo da bebida ao lado. Ele a gelava, e ela se gelava. Ruim. Aquele gosto de café gelado só ficava bom em cafés requintados. À beira da janela do escritório, era só gosto de caneca esquecida.

Viu seu reflexo no vidro da janela, contra o céu escuro, e achou graça. Estava em uma posição verdadeiramente cavalheiresca. Caneca na mão, ar contemplativo, casaco. Era só trocar o sexo do casaco, e ele virava um personagem do Machado de Assis, com uma casaca e qualquer ironia de fim de século dentro de si. E aquele bigode recém-nascido que Lúcia achava lindo, alternativo, estiloso e sexy na mesma medida.

Sentou de novo. A tela do computador era ela mesma uma luminária. Todos na redação tinham uma dessas, em seus criados mudos. Na hora de ir, era só apagar, e lá ficava a redação, dormindo, com uma ou duas luzinhas verdes atentas, acompanhadas pelo som do teclado de um ou dois jornalistas atrasados. Podia ser um começo para a matéria. Comparar o monitor a uma luminária, e a partir daí era só continuar a analogia, e ah não, que coisa horrorosa. Ia parecer aqueles jornalistas amadores que terminam as matérias como se fizessem uma poesia. Se era justamente esse tipo de coisa que ele sempre falava para seus assistentes não fazerem. Era ver uma analogia malfeita, e enviar o texto de volta, com o trecho abominado marcado em vermelho.

Agora estavam ainda quase todos lá, na redação. Olhavam para suas telas, uns digitando sem parar, outros provavelmente procurando luminárias em blogs de esporte. Abriu uma aba para se animar.

E digitou no seu Twitter: Hoje estou meio personagem do Machado. Se eu tivesse um canapé e um piano, organizaria um daqueles serões da época.

Lutou para reduzir o texto e fazer caber. Teve os breves segundos de questionamento. Era um parágrafo interessante? Poria seu Twitter a perder? Ora, não importa. Talvez as luminárias também não importem muito mais. O prazo é para o final de segunda feira, e agora era o final de sexta feira. Quem trabalha às sextas feiras, realmente?

Depois de pensar nisso, ainda passou mais quase uma hora. Organizando coisas, referências, arquivos. Ao clicar pela última vez no Enviar/Receber, veio o e-mail do Fernando.

“Caro Bentinho, a Kátia está querendo fazer um jantar aqui em casa sábado. O piano já temos. Nunca entendi direito o que é um canapé, mas tenho um sofá que pode se fingir de. Só falta a boa companhia”.

Que e-mail legal. Fernando era dos poucos que pegava referências, literárias ou não. Se alguém resolveu usar foda como adjetivo positivo pela primeira vez, provavelmente estava se referindo a ele. Ele era o que se pode chamar de gênio. Não tinha um assunto, em arte, cinema, literatura, arquitetura, quadrinhos e até sabedoria popular que ele não entendesse. Era diferente de outros conhecidos seus – que eram muitos dessa espécie – que tinham vasto repertório de tudo, mas quando questionados mais a fundo, fugiam do assunto, pois só tinham ouvido por cima e forjado uma opinião. Se ele não soubesse sobre o assunto – caso raro – ficava quieto, mostrava algum interesse, sorria e acenava. E tinha certeza que passava as madrugadas pesquisando sobre o assunto.

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