Do lado de cá, sou algo como uma mãe-nãomãe donadecasa-quetrabalha

Se tem uma coisa que me diverte nessa fase em que saí do mundo da publicidade e estou trabalhando de casa é estar do lado de cá. Porque agora ligo a televisão de tarde algumas vezes. E é nessa hora que sou impactada pelo que a publicidade, o lado de lá, me manda. E me diz algumas coisas que eu mesma escrevia há um tempo atrás (e de vez em quando ainda escrevo, vai, para um freela ou outro). E me diz que, em certo ponto, a publicidade ainda está nos anos 50. Porque contar uma história em 30 segundos precisa de pressa. E para contar uma história com essa pressa, não dá tempo de construir personagem e escalas de cinza, né? Então bora pro estereótipo.

Até agora, meus melhores amigos são o casal descolado cuja casa tem regras muito modernas – “aqui quem lava a roupa é o marido!” – que me recomendou, todo sorridente, usar Vanish, uma mãe dentista que acha um horror o filho adolescente mascar chiclete e umas 500 mulheres que são muito ocupadas e fazem muita coisa da vida, entre cuidar dos filhos, do marido, da casa, e maravilha das maravilhas, como é evoluída, ainda encontrar um tempinho para cuidar de si mesmas (engraçado como para a propaganda só mulher é ocupada, homem nunca faz nada, né?).

Isso porque estou em casa assistindo a Home & Health, e na teoria virei “a consumidora que é mulher, mãe, dona de casa, jovem e classe média-alta”. Nem preciso dizer que me sinto excluída toda vez que me apresentam, animados, a girafa com blocos de encaixar da Fisher Price, ou quando começa aquela propaganda que usa a expressão “cocô líquido” – e ainda penso em adiar meus planos de ser mãe em mais 1 ano, pelo menos.

Estou achando um barato ver os anúncios e os textos quadradinhos onde posso LER o plano de mídia e a estratégia de marketing da campanha esfregados na minha cara. É bem estranho, e confesso que às vezes sinto vergonha de algumas coisas que já fiz na vida. E percebi como é preciso estar do lado de cá se você quiser mandar bem do lado de lá. Taí uma lição de casa que todo publicitário deveria ter: ligar a TV de tarde de vez em quando.

É bom estar em casa.

donadecasa

Dois minutos de dicas do Petit

Não sei se já falei pra vocês, mas tive a sorte de trabalhar alguns meses a umas 3 mesas desse gênio. Figurinha polêmica ele era, do tipo “ame ou odeie”. E dei a sorte de cair no lado dos que amavam. Tivemos algumas poucas, mas boas, conversas – numa delas, ele inclusive me parabenizou pelos motivos que me levaram a pedir demissão da DPZ na época. E aquilo foi sensacional. Um dia, se precisar, eu conto. Conto também as razões que ele me deu para só usar meias vermelhas (e cuecas também!).

Pra marcar 1 ano de sua ida, deixo aqui um vídeo curto em que ele diz pouca coisa, mas boa. 🙂

 

e rasgar sua roupa cerrando os dentes.

Tarde de calmaria, propícia para assuntos banais.

Quando a janelinha piscante laranja se abre. É o amigo assistente de arte.

Firmino diz:
como os clientes conseguem SEMPRE escolher a PIOR opcao de layout e ainda PIORAR com as alteracoes???????????
Firmino diz:
E MINHA PERGUNTA ´E SERIA. COMO???????????
Firmino diz:
COMO ELE  VAI DORMIR PENSANDO, NOSSA APROVEI UMA COISA BACANA HOJE????????
Firmino diz:
´E IMPRESSIONANTE
Firmino diz:
SEMPRE
Firmino diz:
SEMPRE A MAIS FEIA DE TODAS AS OPCOES
Firmino diz:
E ELES SEMPRE PEDEM PRA AUMENTAR TUDO!!!!
Firmino diz:
Q SACO
Firmino diz:
SER [UBLICITARIO ´E UM LIXO
Firmino diz:
OU VOCE ASSUME Q NAO ´E NADA NEM PERTO DE UM ARTISTA OU VOCE FICA FRUSTRADO COM TODO E QUALQUER TRABALHO
Firmino diz:
COMO PODE
Firmino diz:
DE VERDADE
Firmino diz:
TEM PESSOAS Q NASCERAM SEM NENHUM SENSO DE ESTETICA MESMO
Firmino diz:
NAO E Q ELAS ACHAM O Q E BONITO E FEIO IGUAL, Q ELAS NAO SAIBAM DIFERENCIAR
Firmino diz:
ELAS ACHAM O QUE E FEIO BONITO E O QUE E BONITO FEIO
Firmino diz:
ELAS TEM O PADRÃO DE ESTETICA INVERTIDO
Franfran diz:
tipo a família adams!
Firmino diz:
E “APROVAM” TUDO QUE UM CARA QUE ESTUDOU ARTE E SABE PRA CACETE DISSO (nesse caso o diretor de arte aqui, nao eu) FAZ
Franfran diz:
hhahahahahah
Franfran diz:
pooooosso transformar num post?
Franfran diz:
posso posso?
Firmino diz:
HAHAHA PODE
Firmino diz:
mas deixa claro q as caixas altas sao em tom de “gritando para um precipicio com raiva e ouvindo um eco muito alto antes de apagar uma fogueira com pulos gritando sons de animais”
Firmino diz:
e rasgar sua roupa cerrando os dentes.

Os nomes foram modificados para preservar a identidade dos envolvidos.

e eu, então.

– Nossa, trabalhei muito hoje.

– E eu, então, não parei um minuto.

– Na minha agência eu mal consigo usar o banheiro.

– Rá, eu uso um penico embaixo da minha cadeira, de tão tensa que anda a coisa por lá.

– Nossa, comigo tá pior!! Trabalhei o último final de semana.

– Eu trabalhei sábado E domingo.

– E eu que trabalhei sábado E domingo de dia e de noite.

– Eu trabalhei sábado E domingo de dia e de noite nos últimos 15 meses.

– Eu mais ainda, trabalhei sábado, domingo, de dia e de noite nos últimos 15 meses sem parar pra ir ao banheiro uma vez.

– Nossa, mas você tá preocupado com banheiros ultimamente né? A gente não tem esse problema, a Pampers é nossa cliente.

– Quando tem concorrência a agência inteira se tranca, ninguém entra e ninguém sai pra não vazar informação.

– Na minha, a criação fica sem água e sem comida até surgir com o conceito certo.

– Na agência que eu trabalho, a criação fica sem água, sem comida e pendurada de cabeça pra baixo pras idéias fluirem mais rápido. Se não tivermos idéias temos que lamber o chão da agência por completo.

– Ontem eu trabalhei até às 5 da manhã, fiquei sem água, sem comida, pendurado de cabeça pra baixo, e fui obrigado a me alimentar dos restos de briefings errados que o Atendimento fez. Enquanto lambia o chão da agência.

– Você sabe, né, eu sou Atendimento e não tem área que trabalha mais que a minha, briefings não saem da noite pro dia, me obrigam a fazer um bem feito, mesmo quando estou vendada, carregando tijolos para construir as pirâmides no turno das 2 horas.

– Isso é moleza, pra mim é pior. Eu não durmo faz cerca de 2 anos.

– E eu então! Morri ano passado e mesmo assim meu chefe me ligou. Fui obrigado a recorrer à magia negra pra me auto-ressuscitar e voltar a trabalhar. O RH disse que assim é melhor já que não preciso receber o plano de saúde.

– E o RH da MINHA agência que é um velho nazista que carrega instrumentos de tortura na mochila da Adidas e quando nosso time sheet diário tem menos que 25 horas nós somos atirados dentro das privadas dos serventes.

– Cara, e eu então, que…

Trabalhar todo mundo trabalha. Loucamente? Na maioria das vezes sim. Aos finais de semana? Sim também. Acontece que a coisa virou tão um concurso de beleza, tão um quemdámais, que eu me sinto a pior profissional do mundo quando admito “ok, hoje até que o ritmo esteve tranquilo por aqui, até saí pra tomar um cafézinho”.

Essa do mundo publicitário glamourizar as horas extras como se elas fossem um sofrimento genuíno (não precisam ser) e como se fosse uma competição pra ver que quem é mais escravizado é o mais bambambam do mercado… me dá um certo mal estar. Lembro sempre desse vídeo sinceríssimo do Monty Python.

que me desculpem.

sem mais. (adoro essa expressão).