16 anos.

Hoje, faz 16 anos que eu comecei a criar esse adolescente louco no qual ele se transformou.

Willifill. Meu rebento, meu primeiro filho, meu livro, minha fantasia, minha ficção, minha história que vai nascer esse ano.

Muito já pensei se demorar dezesseis anos para escrever um livro seria um absurdo. Seria ridículo, teimosia, um pouquinho patético, até.

Ainda acho que se ele não der certo (um pouquinho que seja) vai ser meio triste. Vai ser bem ruim ouvir tanta gente falando “mas dezesseis anos… pra isso?”. Que eu deveria ter desistido, mudado de ideia, investido dezesseis anos em outra coisa (se fosse em banco, eu tava rica).

Mas, sei não.

Um dos pontos fundamentais da minha história é que ela se passa em uma terra fantástica em que tempo não existe. Passado, presente e futuro se misturam, não existe hora, não existe mês, não existem 16 anos.

Acho que combina bastante com ele. Um livro que ignora tanto o tempo passar tanto tempo sendo feito.

Desejo mais tempos assim. Menos calculistas. Menos contadinhos. Menos temporais. Mais ensolarados.

 

 

 

Cobranças e pagamentos

Ultimamente tenho me sentido cobrada por Deus (é, Deus, porque não tenho mais paciência para traduzir Deus como “universo” pra parecer mais moderna) pra dar mais atenção e carinho pras pessoas. Não, não aquelas pessoas fáceis de dar atenção e acarinhar. As pessoas difíceis, difíceis. Aquelas que a gente acha muito mais fácil e seguro trocar por uma checada no celular e um leve aceno de cabeça.

Te contar… e ainda tem gente que acha que o mais difícil de ser religioso é não beber. 🙂

Pílulas de sabedoria pra você tomar com café

Conseguir ser crítico, corajoso e sincero e continuar tendo um bom número de pessoas que gostam de você por você – uma meta difícil, mas boa, a seguir.

De que vale ser experiente se tudo o que você experimentou foi um pouco da mesma coisa sempre? Não é necessário ter excesso de experiência, mas sim as experiências certas.

Expertise não é esperteza.

Conhecimento é comida. Comida pode alimentar, dar vida, matar ou apenas engordar.

(o mesmo vale pra relacionamento).

Estar à disposição e estar disponível são duas coisas diferentes.

O melhor investimento é tomar um tempo pra decantar e ter mais clareza – de dentro pra fora e de fora pra dentro.

Se é bom (e você deixar), acontece.

Nem toda ponte precisa ter um fim.

 

A vendedora

A velhinha de cabelos infinitos ficava no meio da estrada sentada e em sua venda vendia

1. Filtros de nãos

2. Pacotes de expansão de alma, espírito e cabeça

3. A noção de que você pode tudo o que puder fazer sorrindo

4. Mais tardes divertidas com seu amor

5. Controle e extermínio (moderado) de cabeças de vento

6. Catalogação de bom senso

7. Um espelho bonito de se ver

8. Uns textos que falavam a verdade

9. Pílulas fitoterápicas anti-empolamento

10. Manuais de desregras

 

De vez em quando tinha até bolo de cenoura.

 

 

Imagem daqui http://www.designmom.com/2013/02/not-your-average-grandparents/

Continuando a me exercitar

Mais um exercício do cursinho que estou fazendo, esse aqui, em busca da resposta à pergunta fundamental WHO AM I? (e não, 24601 não vale nesse caso).

What do people buy when they buy something from you?

Compram

1. o olhar de alguém de fora para compreender e organizar melhor suas ideias.

2. um posicionamento claro, coerente e corajoso em relação ao mundo.

Sendo menos abstrata, compram novos clientes mais legais (no caso de marcas) e, em todos os casos, compram mais tempo para si mesmos e mais prazer – já que se tentassem sozinhos fazer o que faço por eles até poderiam conseguir, mas gastariam dias e dias tentando fazer alguma coisa legal e muitas vezes se frustrando com resultados ruins.

 

Leave out the easy, repetitive, generic stuff… What you are doing that’s difficult?

  1. Tendo a sensibilidade de fazer uma análise imparcial acertada de cada negócio/marca/casal/situação.
  2. Criando textos e ideias que não se encontram com um simples search no Google.
  3. Combinando 1+2 de uma maneira personalizada, fugindo de modelos prontos da moda ou do último post de sucesso do blog tal.
  4. Fazendo a curadoria de contatos e parceiros valiosos (conquistados com suor e lágrimas [às vezes, literalmente]).
  5. Estando sempre disposta a defender o que acredito (para mim e meus clientes) e sendo consistente com isso em cada job.

 

Não sei porque estou dividindo aqui no blog, mas quem sabe você também se anima a decantar sua vida profissional lendo essas perguntas. Se você gostou dessas perguntas, vale respondê-las também. Estou achando divertido e quiçá útil! 🙂

Who am I?

Novamente, estou num momento Jean Valjean da minha vida. Quem sou eu? ele se pergunta cantarolando algumas vezes, tentando entender. É assim que ando. Não escondo de ninguém que 2016 foi um ano extremamente cansativo, com muita energia gasta em possibilidades e nada mais que isso – e por isso comecei 2017 mudando quase – mas não completamente – absolutamente tudo. Aí decidi pagar uns 140 reais pra fazer um curso com uma temática besta, mas ministrado pelo Seth Godin, sujeito de que gosto demais. O curso se chama CURSO DE FREELANCER. Simples assim. Mas era o que precisava. Um cara inspirador falando um monte de coisas boas e me ajudando a decantar o cérebro pra esse novo ano. Correndo o risco de estar me expondo demais, estou fazendo o primeiro exercício do curso e tornando-o público – porque o Seth falou que era pra eu fazer isso. Então tá. Vamos lá. Um pouco sobre minha carreira daqui pra frente. Mais freela, menos empreendedora. Uma mudança tão simples, porém tão sutil e por isso nada simples. 🙂

 

What do you want to do? (Not your job, but your work, now, tomorrow, and in the future)*

Meu moinho pessoal é a sisudez e a falsa formalidade. Simplesmente porque acredito que as coisas mais sérias e reverentes do universo são as mais felizes. Assim, o que eu quero fazer, a minha missão na vida é inspirar pessoas e marcas a fugir do by-the-book, do manual de instruções, do rigidamente sério e sem porquê. A correr das coisas automáticas, não questionadas (ou questionadas demais até que viraram só teoria). Acima de tudo, a correr das coisas sem graça, posadas, que tentam ser o que não são (às vezes, simplesmente porque acham que o único jeito pra ser é seguir um caminho que alguém inventou, ou porque nunca pararam 5 segundos para pensar que poderia existir outro jeito de ser). Quero mostrar para todo mundo que nada tem que ser sério, sisudo, regrático. Basta ser muito bem sido e usar um pouco a cabeça (e muito o coração). Ah sim, e se eu puder fazer isso, acima de tudo, escrevendo muito – melhor ainda.

 

Who do you want to change, and how do you want to change them?

1. Pessoas de todas as idades que passaram a vida – na escola, no Facebook, na sociedade – sendo ensinadas a acreditar em um mundo que se leva a sério…

…escrevendo textos para serem lidos e absorvidos com um sorriso no rosto e não um ímpeto raivoso de “isso mesmo! essa é a verdade!” também conhecido como clicar em compartilhar imediatamente;

…escrevendo livros de ficção que compartilhem com o mundo minha visão de mundo.

 

2. Casais que estejam noivos e não se identificam com as regras impostas pela indústria do casamento sobre o que é ou não um casamento, mas que acabam tendo que se adequar a cada uma das regras só porque é só o que encontram (o leque se abre para qualquer pessoa em situações análogas – escolhi trabalhar com o casamento em si porque é uma das instituições mais bonitas e que mais sofrem do pálido mundo das regras da seriedade)…

…criando um blog para escrever textos que mostrem que existe outro caminho a seguir;

…oferecendo consultoria para quem tem desejo de organizar um casamento com mais liberdade e criatividade.

 

3. Marcas que estão sendo prejudicadas por não ter uma voz própria e acabam sendo apenas mais uma nesse mundo empacotado do marketing, afogadas em missões, visões e valores sem sentido…

…escrevendo textos mostrando que existe outro caminho a seguir;

…oferecendo consultoria de branding+linguagem e criação de textos para essas empresas.

 

How much risk? (from 1 [a little] to 10 [bet everything]), how much are you willing to put at stake to make the change you seek?

Essa é uma pergunta complexa, já que ela parece ter sido feita mais pra alguém que está pensando em “largar tudo” pra ser freelancer. Esse risco já assumi em 2015. Meus riscos hoje são outros. Então dou uma nota 6. Não porque eu seja uma bunda mole com medo de riscos, mas porque estou mais ponderada. Esse 6 combina um risco de 10 no que diz respeito à imagem percebida – leia-se risco de não encontrar meu nicho (porque acredito muito que ele existe) com 1 no que diz respeito ao tempo para mim. Não quero mais arriscar meu tempo como já arrisquei antes.

 

How much work are you willing to do to get there? Be specific about the tradeoffs.

Muita energia, porém gasta exclusivamente em coisas com futuro. Já passei da fase das reuniões sem pauta. Muito trabalho, de domingo a quinta, das 8h às 18h. Parece radical? É como me sinto hoje – e combina com o que vendo, afinal.

 

Does this project matter enough for the risk and the effort you’re putting into it?

Sim. Talvez eu tenha que arriscar e esforçar um pouquinho mais – mas o tempo me ajudará a dizer.

 

Is it possible — has anyone with your resources ever pulled off anything like this?

Sim, é possível. Na realidade, nada mais é do que o que já venho fazendo há 29 anos – e muito disso há 3 anos – a diferença é que dessa vez vou dar mais atenção para isso e organizar melhor os ganhos financeiros, psicológicos e energéticos. 🙂

 

 

E o último da trilogia

Depois de ter feito os dois últimos posts de 2016 publicados aqui embaixo, percebi MAS QUE DIABOS.

Que era é essa que a gente vive tão necessitado de dar opinião. Cadê as crônicas, cadê a ficção, cadê a fantasia?

(pra falar a verdade, essa última está aqui, sendo escrita toda manhã, mais que nunca, mas)

Mas por que todos os meus últimos textos andam tão cheios de moral, de veja bem, tão cheios de precisava desabafar, de isso é o que eu penso?

Não. Eu quero que eles sejam mais cheios de isso é o que imagino.

E ao perceber que esse post está se tornando mais um post cheio de opinião mais uma vez, paro por

 

 

 

O problema de ser babaca é que é sem querer

Já fiz muita coisa besta, da qual tenho vergonha ou raiva nesse campo. No colégio, já tratei mal meninas por elas “serem oferecidas demais”. Na vida, já olhei feio para mulheres bonitas só porque elas eram bonitas demais. Mais velha, já fui completamente submissa a um namorado babaca que me desrespeitava – e eu insistia no erro.

O pior disso tudo? Não posso culpar a falta de leitura ou de pensamento sobre o assunto. Tive uma criação maravilhosa. Meus pais sempre foram muito abertos para falar sobre tudo e eu passei minha adolescência me achando muito bem resolvida em relação a preconceito, relacionamentos e feminismo.

Pior ainda? No tempo em que eu me envolvi com o namorado babaca supracitado, eu ASSINAVA A BUST, a revista mais feminista do mundo e devorava cada artigo, achando que estava sendo a feminista mais feminista do mundo na época… sem perceber que estava vivendo exatamente o contrário do que lia. Afinal, eu era iluminada, sabia diferenciar a esquerda da direita, era ÓBVIO que eu não ia cair nessa armadilha.

O problema é que a armadilha é tão, mas tão entranhada dentro da gente que a gente nem percebe.

O que eu quero dizer com esse desabafo? Que ser preconceituosa, sexista, que estar do lado de lá ou de cá do preconceito é a coisa mais fácil do mundo. Não é só coisa de homem branco hetero, nem de “religioso”, nem de gente burra, não. É coisa de gente. E muitas vezes é coisa DA GENTE. Porque ser babaca, ser mau, ser agressor ou ser vitima não é só apertar um botão e começar a ser, não. Não é como em filme, com risadas malévolas, com música tema e tudo mais. Somos babacas e somos trouxas e somos maus mais vezes do que pensamos ser, porque somos sem querer. E é isso que precisamos assumir. Porque só assim vamos perceber. E aprender.

Tendo pensado bastante nisso nos últimos anos e feliz com a nova onda do feminismo que vejo brotar por aí, tenho tentado ultimamente duas coisas:

  1. Acima de tudo, apoiar a nova onda do feminismo compartilhando informações úteis e honestas. Informações que empoderam a mulher, mas também a humanidade como um todo – sem desautorizar outros gêneros de ser, um desrespeito que vejo acontecer demais e aí já não faz mais sentido algum. Pra mim, é só com informação e não com mimimi que conseguimos ajudar a dar luz pra gente e pros outros…
  2. …sem julgar e sem ser cruel com a pessoa que não está “iluminada” o suficiente. Porque já estive lá, justamente na época em que achava que mais estava iluminada e bem resolvida. Porque, quem sabe, eu não estou lá de novo? Ou você? Afinal, se tem uma coisa que a vida me ensinou é que muitas vezes quando estamos em nossa fase de mais certezas é que mais estamos errando… e que muitas certezas iluminadas de hoje são bem tortas quando vistas no futuro, em perspectiva.

Feliz ano novo e que estejamos acordadas e conscientes de nossas próprias virtudes e babaquices. E que (nos) amemos, porque a dor só para de doer quando paramos de procurar culpados pra apontar. Acredite. 🙂

hashtag gratidão

Se tem uma coisa que não gosto é da #gratidão. Acho besta, acho cafona e usada demais e sem sentidomente.

Se tem uma coisa que acho polêmica é ficar falando pra alguém que a vida é perfeita, basta ser otimista e sorrir até a bochecha doer, aí tudo o que você vai notar é a dor na sua bochecha e esquecer do resto das dores da vida.

Mas se tem uma coisa que suplanta as duas coisas acima é minha raiva com nossa tendência a entrar na loucura da massa e esquecer de usar nossa própria massa cinzenta.

Ontem eu entrei na loucura da internet e fiz uma brincadeira falando pras pessoas escolherem seus sentimentos em relação a 2016 no meu tumblr irônico Tudo Ótimo, Babaca. A piada foi ótima, mas foi naquele momento que eu comecei a pensar na injustiça que eu estava cometendo.

Pois bem. Globalmente, 2016 foi um ano horroroso. O mundo anda uma panela de pressão, com decisões políticas esquisitas e marcantes em todo canto, crise no Brasil, guerras cada vez mais presentes, separações de celebridades, mortes de celebridades.

Mas às vezes precisamos colocar o mundo em perspectiva. E separar o mundo da gente. E, no meu caso, perceber que apesar de 2016 ter tido sua cota de impossibilidades na minha vida, ele felizmente/graças a Deus não foi assim tão terrível pra mim. A verdade é que 1. A panela de pressão não me pressionou muito. Não sei o que ela vai fazer no futuro – se entupir e explodir de vez ou no fim vai só virar um caldo gostoso (não sei, nesse mundo doido tudo é possível, não é?), mas por enquanto pra mim ela tem sido apenas uma presença pra ficarmos de olho na cozinha desse planeta*. 2. Aqui em casa a crise apareceu na nossa vida de uma maneira mais doida que cruel (de certa forma, graças a ela estamos tentando construir uma nova vida muito mais legal que a anterior). 3. A guerra é uma realidade que felizmente nunca vivi. 4. E especialmente, apesar de celebridades importantes terem se separado ou partido, olha que coisa boa, na minha família e amigos não tivemos nenhum desses casos esse ano.

Deu pra entender o raciocínio? É por isso que acho uma hipocrisia do caramba eu sair xingando um ano que não foi tão cruel comigo, especificamente.

Houve sofrimento, houve perda e tristeza pra muita gente – muitas pessoas foram diretamente afetadas e sofreram de verdade nesses 366 dias (sim, um dia a mais, porque desgraça pouca é bobagem). E é justamente por essas pessoas que acho melhor mudar meu discurso. É injusto comigo mesma e PRINCIPALMENTE com elas que eu – eu como indivídua, pessoa, privada, particular – comece a xingar 2016 só porque está na moda. Não me sinto no direito, pra falar a verdade.

Se 2016 foi terrível pra você, você tem todo o direito – vai lá, xingue, poste, mande à merda – eu mesma fiz isso em 2011 (minha foto de feliz ano novo em 2011 é clássica [pra quem não lembra/sabe, ela figura eu mostrando dois dedos, um para cada 1 do ano]) e tinha toda a razão (como 2011 foi ruim pra mim, aquele cretino…) – mas acho muito importante, antes de mais nada, ser sincero e não mais um na onda de posts em busca da melhor piada.

A vida é uma eterna questão de equilíbrio – entre não se alienar em si mesmo e não se alienar na massa. E acho que se alguém pode ajudar a melhorar o mundo é quem, nele, ainda está em condições de acreditar que as coisas podem ser boas.

Assim, obrigada por ter sido esquisito porém bom pra mim, 2016. E que 2017 seja mais gentil com todos nós.

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Uma foto de duas coisas boas de 2016: minha avó, que fez 80 anos, e meu sobrinho, que nasceu em junho. 🙂

 

*O que me fez pensar, depois de escrever esse post, o quanto de ódio a 2016 na verdade é mais do que tudo, medo do que as decisões tomadas em 2016 venham a se tornar em 2017 e nos próximos anos. Ou seja, não é ódio a 2016, mas medo dos anos que vêm. Assim, e se em vez de ficarmos xingando o ano que já se passou (e que não é uma entidade e sim uma quantidade de dias que quem mede é a gente), que tal se nos prepararmos para os próximos anos, esses sim sobre os quais ainda temos algum poder? Enfim, filosofia pós-post pra arrematar. 🙂

Franando na França #9: Expectativas x Realidade x Estou aqui vivendo esse momento lindo

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Quando você vê minhas fotos no instagram ou quando ouve falar “estou nesse castelo no meio de vinhedos da região de Bordeaux para terminar meu livro e está sol, e está um céu azul maravilhoso e hoje depois do almoço fui dar uma volta a pé para reconhecer a região e tirei fotos lindas, depois de passar a manhã escrevendo enquanto o meu marido ilustrava, ouvindo jazz com a luz do sol vazando pelas janelas”, o que pensa?

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Não sei se é coisa da humanidade em geral, mas sei falar por mim, que eu sou uma eterna embevecida com as histórias dos outros. Acho que eu sou imaginativa demais e sempre não só imagino a grama do vizinho mais verde, mas também florida e com Noviças Rebeldes cantando nela. O fato é que quando via as fotos ou conversava com pessoas que fizeram uma viagem parecida com essa nossa, que pegaram um carro e ficaram flanando pelas vinícolas da França, eu ouvia aquilo achando tudo tão chique e ao mesmo tempo tão gostoso – e me achando até um pouco menos sofisticada que eles, menos letrada, menos viajada. Ficava só imaginando essas pessoas andando de vinhedo em vinhedo, sentando na mesa da vinícola junto com velhinhos viticultores e conversando em francês e depois chegando de noite e tomando banho de banheira no castelo mais cheiroso e limpo da França. Que delícia maravilhosa, que sonho.

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Aí corta para a vida real, em que banho de banheira na verdade é tomar banho com uma mão só (porque a outra está segurando um chuveirinho). Para a vida real, em que o castelo tem cheiro de castelo. Para a vida real em que você, a muito contragosto, percebe que fazer um tour por vinícolas não faz sentido para você porque você e seu marido nem são assim tão fãs de vinho e não curtem a ideia de dirigir depois de uma degustação. Para a vida real em que você aborta logo seus planos de fazer uma caminhada pelos arredores do hotel-castelo porque por onde passa os cachorros começam a latir loucamente e incomodar os donos das propriedades em volta, que saem nas janelas para xingar os cachorros e porque um dos cachorros resolve correr atrás de você. Para a vida real, em que você sobe em um murinho para sentar nele, achando que estava arrasando de lindona, só para sair na foto com uma barriguinha proeminente e uma franja sebosa.

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Mas aí você ri e olha para a vida, agradecida. Acho que pra mim, a vida sempre foi esse eterno decidir entre o que fazer com esse vão entre a vida que eu imaginava e a vida real. E eventualmente, decidir fazer o melhor dele.

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Porque esse vão pode te transformar em um eterno resmungão ou um eterno deslumbrado. E, pra te falar a verdade, não gosto de nenhum dos dois personagens. Tanto o primeiro quanto o segundo podem ser bem xaropes depois de um dia ou dois. O primeiro, um xarope azedo e o segundo um xarope doce demais e difícil de engolir. O que gosto é do terceiro personagem, um pouquinho salgado, talvez: ele é algo entre os dois, um ser que abraça a vida real e suas realidadinhas engraçadas, mas sem perder o encanto. Sem perder a noção de que sim, é um sonho poder ter passado a manhã escrevendo num castelo, almoçado um pato maravilhoso, andado debaixo desse céu azul do hemisfério norte sem nada pra pensar a não ser nas letras que quero dizer e no meu amor pelo meu marido e pela vida que ainda vem.

Não, pra falar a verdade, não é um sonho. É muito mais legal que um sonho. Porque é real. E o legal da vida real é que ela é assim, real. Com tudo de agradável e de verdadeiro que existe na realidade. 🙂

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