O mundo, se não acabar (quando tudo isso acabar), melhora

Já fui recém-convertida e já convivi com recém-convertidos o suficiente para dizer que todo recém-convertido é mala pra caramba.

Se você tem levado uma vida com espaço para diversidade e para coisas novas e grandiosas (tomara que sim), já deve ter conhecido (ou sido) o recém-convertido a uma religião, ao ateísmo, ao crossfit, ao veganismo, ao feminismo. Tem também o recém-convertido à terapia, à cultura pop, a algum voluntariado, à Mary Kay. Tem todo tipo de recém-conversão, e para todas elas eu já percebi que o mesmo comportamento aparece: o da chatice sem fim.

É porque conversão implica uma certa entrega de cabeça e a gente é propenso a isso. Quanto mais profunda a causa, mais importante ela nos parece. É por isso que tem gente que chama de lavagem cerebral, é por isso que tem culto que parece absurdo, mas segue atraindo fiéis. E é por isso que quem acaba de se converter fica assim, meio chato. Monotemático, exagerado, bitolado, obcecado. Quando estamos recém-convertidos, queremos converter todo mundo em volta, porque não faz o menor sentido alguém não pensar de tal e tal maneira, alguém se recusar a sentir essa coisa grandiosa que estamos sentindo por dentro.

E é assim que essas eleições estão nos deixando: tem os que sempre penderam para um lado ou outro, mas em sua maioria a impressão que me dá é que viramos milhões de recém-convertidos. Ao Bolsonaro, ao Haddad… à política, como um todo. Monotemáticos, exagerados, bitolados, obcecados. O Brasil descobriu a política, para o bem ou para o mal e agora está recém-convertido.

É ruim? É cansativo, é chato, é perigoso. Porque se tem uma coisa que recém-convertido acaba fazendo, por mais que não perceba, é demonizar o outro lado. O outro lado são ELES: os descrentes, os crentes, os sedentários, os comedores de carne, ou… insira a antítese da nova conversão aqui. Todos eles são desalmados, burros, AQUELA GENTE que não atingiu o seu maravilhoso grau de iluminação, pessoas que são diferentes de você, ou pior, são o seu oposto e por isso não merecem… sua admiração/ser felizes/seu respeito/viver.

O melhor, meu amigo, é que isso tudo é apenas medo. É que quando a gente descobre uma nova faceta da verdade ela é tão clara e nítida que nos faz rever todos os antigos valores. E isso fragiliza. Uma nova faceta da verdade mexe com a cabeça, com o coração, com o umbigo. E quando estamos nesse desequilíbrio interno, as coisas estão tão repesadas que parece que qualquer coisa de fora que vai contra isso tudo é uma ameaça, vai desbalançar a cabeça de vez. Qualquer coisa que venha fazer a gente repensar uma nova crença, tão novinha, tão frágil, pode abatê-la.

E aí vem um medo danado. E medo se esconde atrás de ódio. Ele vira reação. Vira raiva. Vira mensagem digitada imediatamente, com muita pressa e indignação.

Mas é só ruim? Eu acho que não. Eu quero acreditar em um lado bom disso tudo aí. Porque tem um lado lindo, tem sim. Porque quando passa a fase inicial dessa conversão, se foi uma conversão de verdade, se foi uma conversão de alma, de essência, a parte chata, bitolada e extremista da coisa toda, com o tempo, sai de cena. E sobra a essência da conversão, junto com a falta de medo. E aí fica o melhor dos mundos.

Pra que isso aconteça, é tempo.

É vivência.

É a vida dar um jeito de te mostrar que mesmo sua nova religião-filosofia-esporte-série-candidato favoritos pode ter defeitos, provavelmente tem.

É – e isso é tão, mas tão importante – você conviver mais com ELES (sejam lá quem forem ELES para você) e ver que nem sempre se tratam de desalmados monstros loucos burros. Talvez sejam uns ELES mais desinformados, ou que se informam diferente de você. Ou gente vivendo em outra etapa da vida, que ainda não “abriu a mente”, se você quer falar nesses termos. Ou simplesmente… gente diferente de você.

É você amadurecer ou envelhecer ou a vida te fazer perder o contato com a comunidade à qual você se converteu ou a paixão inicial se esvair.

E vai ser nesse momento, depois de tempo, testes e crescimento, que a conversão vai virar a chave. E se com tudo isso a conversão aguentou firme, ela assentou. Sobreviveu. Foi completa. E aí é lindo. E aí você está mais pleno, feliz, tranquilo, não precisa responder todas as mensagens, não com pressa, não com raiva.

Aí você vê que não vai mais precisar converter ninguém falando nada, mostrando fatos, dados e provas. Você vai ver que não precisa sequer converter ninguém.

E apenas sendo você e vivendo você por completo, você não vai precisar nem ter medo de que ela vá embora.

É por isso que não acho que alguma coisa boa virá imediatamente dessa eleição e seus milhões de recém-convertidos. Estamos mais amedrontados e raivosos que nunca. Estamos malucos, mesmo. Esses próximos 4 anos serão bem complicados, não importa o resultado a que a gente chegue.

Mas vai assentar. E quando assentar, acredito que os recém-convertidos, todos eles, todos nós, vão sair do outro lado melhores, mais evoluídos, mais iluminados. No mínimo, vamos sair do outro lado entendendo de política, veja você, esse assunto que era tão estranho a nós e agora virou nossa causa.

E para isso a gente vai precisar esperar o tempo passar, viver, conviver com os temidos ELES, ver a perfeição da nova crença sendo posta a prova ano a ano. E vamos quebrar a cara, e quebraremos de novo, até ficarmos assim, lapidadinhos. E o medo reativo vai dando lugar à ação produtiva.

A gente vai amadurecer, envelhecer, mas se não deixar passar a essência desse novo aprendizado, desse sentimento grande dentro da gente, o de que existe uma verdade à qual você será fiel, as coisas só tendem a melhorar.

Mas tem que ser de verdade. 🙂

 

 

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