E o último da trilogia

Depois de ter feito os dois últimos posts de 2016 publicados aqui embaixo, percebi MAS QUE DIABOS.

Que era é essa que a gente vive tão necessitado de dar opinião. Cadê as crônicas, cadê a ficção, cadê a fantasia?

(pra falar a verdade, essa última está aqui, sendo escrita toda manhã, mais que nunca, mas)

Mas por que todos os meus últimos textos andam tão cheios de moral, de veja bem, tão cheios de precisava desabafar, de isso é o que eu penso?

Não. Eu quero que eles sejam mais cheios de isso é o que imagino.

E ao perceber que esse post está se tornando mais um post cheio de opinião mais uma vez, paro por

 

 

 

O problema de ser babaca é que é sem querer

Já fiz muita coisa besta, da qual tenho vergonha ou raiva nesse campo. No colégio, já tratei mal meninas por elas “serem oferecidas demais”. Na vida, já olhei feio para mulheres bonitas só porque elas eram bonitas demais. Mais velha, já fui completamente submissa a um namorado babaca que me desrespeitava – e eu insistia no erro.

O pior disso tudo? Não posso culpar a falta de leitura ou de pensamento sobre o assunto. Tive uma criação maravilhosa. Meus pais sempre foram muito abertos para falar sobre tudo e eu passei minha adolescência me achando muito bem resolvida em relação a preconceito, relacionamentos e feminismo.

Pior ainda? No tempo em que eu me envolvi com o namorado babaca supracitado, eu ASSINAVA A BUST, a revista mais feminista do mundo e devorava cada artigo, achando que estava sendo a feminista mais feminista do mundo na época… sem perceber que estava vivendo exatamente o contrário do que lia. Afinal, eu era iluminada, sabia diferenciar a esquerda da direita, era ÓBVIO que eu não ia cair nessa armadilha.

O problema é que a armadilha é tão, mas tão entranhada dentro da gente que a gente nem percebe.

O que eu quero dizer com esse desabafo? Que ser preconceituosa, sexista, que estar do lado de lá ou de cá do preconceito é a coisa mais fácil do mundo. Não é só coisa de homem branco hetero, nem de “religioso”, nem de gente burra, não. É coisa de gente. E muitas vezes é coisa DA GENTE. Porque ser babaca, ser mau, ser agressor ou ser vitima não é só apertar um botão e começar a ser, não. Não é como em filme, com risadas malévolas, com música tema e tudo mais. Somos babacas e somos trouxas e somos maus mais vezes do que pensamos ser, porque somos sem querer. E é isso que precisamos assumir. Porque só assim vamos perceber. E aprender.

Tendo pensado bastante nisso nos últimos anos e feliz com a nova onda do feminismo que vejo brotar por aí, tenho tentado ultimamente duas coisas:

  1. Acima de tudo, apoiar a nova onda do feminismo compartilhando informações úteis e honestas. Informações que empoderam a mulher, mas também a humanidade como um todo – sem desautorizar outros gêneros de ser, um desrespeito que vejo acontecer demais e aí já não faz mais sentido algum. Pra mim, é só com informação e não com mimimi que conseguimos ajudar a dar luz pra gente e pros outros…
  2. …sem julgar e sem ser cruel com a pessoa que não está “iluminada” o suficiente. Porque já estive lá, justamente na época em que achava que mais estava iluminada e bem resolvida. Porque, quem sabe, eu não estou lá de novo? Ou você? Afinal, se tem uma coisa que a vida me ensinou é que muitas vezes quando estamos em nossa fase de mais certezas é que mais estamos errando… e que muitas certezas iluminadas de hoje são bem tortas quando vistas no futuro, em perspectiva.

Feliz ano novo e que estejamos acordadas e conscientes de nossas próprias virtudes e babaquices. E que (nos) amemos, porque a dor só para de doer quando paramos de procurar culpados pra apontar. Acredite. 🙂

hashtag gratidão

Se tem uma coisa que não gosto é da #gratidão. Acho besta, acho cafona e usada demais e sem sentidomente.

Se tem uma coisa que acho polêmica é ficar falando pra alguém que a vida é perfeita, basta ser otimista e sorrir até a bochecha doer, aí tudo o que você vai notar é a dor na sua bochecha e esquecer do resto das dores da vida.

Mas se tem uma coisa que suplanta as duas coisas acima é minha raiva com nossa tendência a entrar na loucura da massa e esquecer de usar nossa própria massa cinzenta.

Ontem eu entrei na loucura da internet e fiz uma brincadeira falando pras pessoas escolherem seus sentimentos em relação a 2016 no meu tumblr irônico Tudo Ótimo, Babaca. A piada foi ótima, mas foi naquele momento que eu comecei a pensar na injustiça que eu estava cometendo.

Pois bem. Globalmente, 2016 foi um ano horroroso. O mundo anda uma panela de pressão, com decisões políticas esquisitas e marcantes em todo canto, crise no Brasil, guerras cada vez mais presentes, separações de celebridades, mortes de celebridades.

Mas às vezes precisamos colocar o mundo em perspectiva. E separar o mundo da gente. E, no meu caso, perceber que apesar de 2016 ter tido sua cota de impossibilidades na minha vida, ele felizmente/graças a Deus não foi assim tão terrível pra mim. A verdade é que 1. A panela de pressão não me pressionou muito. Não sei o que ela vai fazer no futuro – se entupir e explodir de vez ou no fim vai só virar um caldo gostoso (não sei, nesse mundo doido tudo é possível, não é?), mas por enquanto pra mim ela tem sido apenas uma presença pra ficarmos de olho na cozinha desse planeta*. 2. Aqui em casa a crise apareceu na nossa vida de uma maneira mais doida que cruel (de certa forma, graças a ela estamos tentando construir uma nova vida muito mais legal que a anterior). 3. A guerra é uma realidade que felizmente nunca vivi. 4. E especialmente, apesar de celebridades importantes terem se separado ou partido, olha que coisa boa, na minha família e amigos não tivemos nenhum desses casos esse ano.

Deu pra entender o raciocínio? É por isso que acho uma hipocrisia do caramba eu sair xingando um ano que não foi tão cruel comigo, especificamente.

Houve sofrimento, houve perda e tristeza pra muita gente – muitas pessoas foram diretamente afetadas e sofreram de verdade nesses 366 dias (sim, um dia a mais, porque desgraça pouca é bobagem). E é justamente por essas pessoas que acho melhor mudar meu discurso. É injusto comigo mesma e PRINCIPALMENTE com elas que eu – eu como indivídua, pessoa, privada, particular – comece a xingar 2016 só porque está na moda. Não me sinto no direito, pra falar a verdade.

Se 2016 foi terrível pra você, você tem todo o direito – vai lá, xingue, poste, mande à merda – eu mesma fiz isso em 2011 (minha foto de feliz ano novo em 2011 é clássica [pra quem não lembra/sabe, ela figura eu mostrando dois dedos, um para cada 1 do ano]) e tinha toda a razão (como 2011 foi ruim pra mim, aquele cretino…) – mas acho muito importante, antes de mais nada, ser sincero e não mais um na onda de posts em busca da melhor piada.

A vida é uma eterna questão de equilíbrio – entre não se alienar em si mesmo e não se alienar na massa. E acho que se alguém pode ajudar a melhorar o mundo é quem, nele, ainda está em condições de acreditar que as coisas podem ser boas.

Assim, obrigada por ter sido esquisito porém bom pra mim, 2016. E que 2017 seja mais gentil com todos nós.

camposedaria 170

Uma foto de duas coisas boas de 2016: minha avó, que fez 80 anos, e meu sobrinho, que nasceu em junho. 🙂

 

*O que me fez pensar, depois de escrever esse post, o quanto de ódio a 2016 na verdade é mais do que tudo, medo do que as decisões tomadas em 2016 venham a se tornar em 2017 e nos próximos anos. Ou seja, não é ódio a 2016, mas medo dos anos que vêm. Assim, e se em vez de ficarmos xingando o ano que já se passou (e que não é uma entidade e sim uma quantidade de dias que quem mede é a gente), que tal se nos prepararmos para os próximos anos, esses sim sobre os quais ainda temos algum poder? Enfim, filosofia pós-post pra arrematar. 🙂

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