Franando na França #7: Do loire não há mais nada a dizer

Pra ler ouvindo

Uma vez, há alguns anos, me falaram pra, quando eu viesse pra França, pegar uma bicicleta e pedalar no Loire, região da França famosa pelos seus castelos, que margeiam um rio maravilhoso (o Loire, que é quem nomeia a região). Na minha mente de quem na época nunca tinha viajado pra fora, visualizava esse trecho da França de uma maneira extremamente poética: pensei num rio lindíssimo, onde eu pedalaria literalmente entre castelos, distribuídos de maneira homogênea, mais ou menos de 1 em 1 km. Nada de cidade, apenas um campo verde ladeado por castelos, bastava escolher um e visitar. Depois era subir na bike e seguir para o próximo.

Não precisa nem contar que o Loire é sim um rio bonito e existem sim castelos nos seus arredores, mas que ele não é bem o que eu imaginava quando mais jovem, né? Não que eu tivesse isso em mente quando pensava nesse trecho da viagem agora em 2016, já mais velha e vivida….

Mas eu preciso contar uma coisa pra você: puxa o banquinho e tenta não me interromper dizendo MAS COMO ASSIM É LINDO. Eu não gosto de castelo. Deixa eu tentar explicar. E vou explicar contando um pouquinho sobre minha sobrinha de 3 anos. A Júlia é uma das (mini)pessoas mais empolgadas com nossa viagem, a toda hora perguntando se já tínhamos visto muitos castelos por aqui. Assim, quando chegamos aos castelos do Loire, a primeira coisa que fizemos foi mandar fotos e vídeos deles, especialmente para ela. A resposta demorou para chegar e quando veio, foi apenas um áudio no whatsapp com a seguinte pergunta: MAS CADÊ OS CAVALOS VOADORES?

Júlia, é exatamente isso que eu me pergunto. Morando em um país sem cultura de castelos e assistindo a eles em filmes e desenhos da Disney, sempre tive uma imagem super fantasiosa: coisas imensas, suntuosas, de uma riqueza incrível, com fadas, princesas de vestidos brilhantes e seus bichinhos cantores circulando ao seu redor. Mas sempre que visito um castelo eu me sinto enganada. Além de serem menores e mais pelados, eles são apenas… castelos. E não os castelos que eu castelava na cabeça, castelos imeeeensos, raros, em que só reis e rainhas viviam, com seus cortesãos e seilámaisoquê. Corta para a realidade: castelos eram o duplex dos séculos passados. Bastava ter um dinheirinho e um parente rei que você garantia o seu castelo. Vai daí que o Loire, a região da França famosa pelos seus castelos, tem CENTENAS de castelos. Porque castelo na França saía mais que chuchu na Serra. Os caras têm tanto castelo que não sabem nem o que fazer com eles: o que tem por aqui de castelo que virou hotel ruim ou cenário de ensaio de casamento não tá escrito no gibi. Claro que existe espaço para castelos maiores e mais bonitos, mas mesmo eles ainda estão me devendo cavalos voadores.

Com tudo isso em mente, você já deve ter sacado que eu não tinha grandes expectativas em relação ao Loire. O plano inicial era ter ficado dois dias em Tours e dois dias em Vitré – plano muito baseado nas dicas do Lonely Planet, o livro-guru que estamos consultando na viagem. Porém, como vimos que a viagem de carro ficaria muito cansativa, quebramos ela em 4 etapas: um dia em Auxerre, outro em Orléans, aí sim fomos para Tours e em seguida Vitré (que foi um desvio da viagem, só porque cismei que era uma cidade linda – e acertei). Fizemos esse trecho quase sempre margeando o rio Loire – e vendo alguns castelinhos no caminho.

No saldo geral:

– chegamos de noite em Auxerre e não conseguimos ver muita coisa – mas tudo que pude notar é que era uma cidade MUITO SILENCIOSA e ficamos no hotel mais legal da viagem até então, como falei no post anterior.

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– nos apaixonamos por Orléans! Foi uma cidade que escolhemos meio aleatoriamente. O Lonely Planet não fez jus nenhum à cidade, que curiosamente se transformou em nossa cidade favorita da viagem até agora! Ela tem o equilíbrio certo entre tudo o que eu e o Julio gostamos – cultura, poesia e uma onda meio alternativa pairando no ar, umas ruinhas bacanas de compras, roda gigante e carrossel. É nela que vimos o rio Loire pela primeira vez! A cidade tem uma ligação super forte com a Joana D’Arc. Gostei muito de conhecer mais sobre essa santa feminista. Ah! Ela também tem a Catedral mais bonita que vi na vida (e olha que já foram muitas só nessa viagem!). Pensa num interior gigantesco e muito bem conservado, com música sacra tocando em um sistema de som maravilhoso (sem fotos, porque não gosto de fotografar interior de igrejas).

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– já Tours, que segundo o guia era a cidade ideal para se aportar no Loire, nos foi bem opaca. Cidade nem grande nem pequena, sem charme nenhum. Tanto que nem lembro o que fizemos lá, além de uma visita ao castelo da cidade… que, veja você, não tem cavalos voadores. É uma galeria de arte bem normalzinha. Acho que o que mais marcou foi entrar na Catedral (sim, aqui é overdose de igreja católica, vi só hoje pela primeira vez uma igreja batista) e ver o órgão de tubo tocando ao vivo pela primeira vez. Incrível.

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– pra não dizer que não fomos em nenhum dos castelos mais famosos, além de passar em frente de alguns bem bonitos, tentamos ir ao Castelo de Villandry, mas ele tinha fechado dois dias antes para reabrir só ano que vem (uma mistura de azar com falta de consultar o site antes de ir :D) e acabamos indo de verdade no Castelo de Brézé. O legal dele é que é um castelo com um subterrâneo gigante bem divertido para nós, o casal que ama um buraco embaixo da terra e… bem, é isso, também não tinha cavalos voadores. Mas o dia estava lindo demais, com um sol que anda muito fujão enfim dando as caras por aqui!

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– por fim, almoçamos em Saumur num restaurante delícia e chegamos em Vitré já bem no fim do dia. Achamos a cidade uma simpatia só. Ficamos no hotel Le Petit Billot, que é praticamente uma casa de vó com muitos quartos, uma fofurinha engraçada. Depois de um dia super cansativo na estrada e um perrengue pra achar estacionamento, fomos procurar um jantar por lá e nunca tivemos uma tradução melhor do que significa “confort food”. Amo comida francesa, tenho acertado mais que errado nas comidas por aqui (especialmente agora que estamos mais longe da Alsácia), mas nunca pensei que um KEBAB seria a comida mais abraçada pelo meu estômago nos últimos dias! Sério. Depois de negar vários restaurantes franceses de Vitré, encontramos um kebab com cara boa e resolvemos entrar. O kebab veio com um tempero que me levou de volta pra casa: um cuscuz marroquino temperado com um refogado de alho e cebola que não fez sentido nenhum, mas foi sensacional. Incrível como uma base de tempero tão simples pode traduzir tão simplesmente nossa casa. <3

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E essa foi nossa passagem no Loire! Vejam vocês que não falo nada da paisagem (que era linda)… é que meu negócio é flanar nas calçadas, não tem jeito. Tenho cada vez mais percebido que meu jeito de viajar (e o do marido também, um pouco) é a paixão por sentir o pulso da cidade.  Não o pulso óbvio, aquele das Galerias Lafayette, da H&M e da Zara, não. O que amo é encontrar o centro de compras alternativas, sacar o estilo de vida, perceber o que se cria naquela cidade especificamente. Prefiro mil vezes parar no meio de uma rua cheia de quinquilharias estranhas locais a parar o carro em um ponto bonito e tirar foto da paisagem. 🙂 Foi depois de cruzarmos o Loire inteiro e parado apenas uma vez por DOIS MINUTOS pra tirar uma foto só pra dizer que tiramos (e aproveitar pra pegar alguma coisa que esquecemos no porta malas) que percebemos isso.

E foi isso que aprendemos sobre nós mesmos nesse trecho da viagem. E você? Qual é seu jeito de viajar?

Rumo ao meio da viagem!

One thought on “Franando na França #7: Do loire não há mais nada a dizer

  1. Haha… Não sei se meu comentário ajuda ou piora, mas acho que foi apenas a época do ano “errada” para se conhecer o Vale do Loire. As cidadezinhas e castelos são bem vivos na primavera-verão, com algumas tabernas (guinguette) e shows na beira do Rio, feiras de antiguidades, festivais medievais com cavalos (não voadores) e seus chevaliers de verdade.
    A real é que diferente do Sena tão presente na paisagem de Paris, nenhuma cidade foi realmente construída às margens do Loire, devido às invasões vikings que por ali chegavam destruindo tudo que viam pela frente. Tanto que os castelos de Chenonceau (a paisagem que você esperava ver) e Chinon, ficam na beira dos rios Cher e Vienne.
    E tudo bem que a França tem mais de 30 mil castelos (impossível chegar ao número exato) entre ruínas e os renascentistas, mas alguns do Vale do Loire são extremamente relevantes por sua carga histórica e etc, etc.
    PS: não aabia que vocês passariam pelo Loire… Que pena! 🙁

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