Amanhã a gente começa, e dessa vez é amanhã mesmo

 

paris

Parece que foi ontem (quando na verdade foi há 11 anos atrás). Primeiro ano da faculdade, aquele monte de pessoinhas prontas para encarar a verdade daquela música que eu temia ver realizada, à sua maneira moderna e cheia de “crises dos 20 anos”, sentadinhas, ansiosas, na aula de sociologia, aquela disciplina de nome misterioso.

O professor entrava na sala e do alto de seu allstar vermelho e sua expressão de sonhador moderado que arrancava suspiros das calouras falou sobre o flâneur.

Aquele sujeito-estilo-de-vida-função-social que surgiu na França (é claro) do século 19 junto à ideia de cidade, entrou na minha cabeça imediatamente e se aboletou por lá. Eu era uma caiçara fajuta recém fugida saída de Santos e estava encantada com essa São Paulo toda. Aquela multidão, aquela coisa que não tinha começo nem fim que era a cidade, a urbanidade da urbanidade, aquela coisa particularmente linda para quem, como eu na época, vivia no circuito Pinheiros-Vila Madalena-Paulista, ah, aquela São Paulo da diversidade, do bom gosto e da cultura pulando por todos os lados (nota mental: uma São Paulo que ainda existe pra além do meu cansaço e que merece minha atenção ano que vem)…

O raciocínio flâneur era um prato cheio praquela Francine de roupas coloridas que vivia na Avenida Paulista matando tempo. O flâneur me inspirou a andar tardes e mais tardes por aquela avenida naqueles primeiros anos da faculdade, em que eu ainda não trabalhava oficialmente, era só freelancer, com a vida mais ou menos ganha porque nem precisava de muito. E curti muito e guardo com muito carinho os anos de 2005 e 2006, antes dos amigos terem que marcar na agenda para se encontrar, antes do dinheiro ou da vontade de cada um de ser mais bem sucedido mais inteligente mais culto mais diferente mais descolado mudar todas as lógicas.

Aí eu arranjei emprego, a vida foi sacolejando e o conceito de flâneur sumiu da minha cabeça.

Até agora. Nesses últimos seis meses (na verdade, nesses últimos anos, sem querer) em que eu e meu marido nos preparamos para a viagem que começa amanhã, flanar tem sido um verbo possível. Graças a Deus, aos planos, aos sonhos e às planilhas mágicas da família Guilen-Almeida. Serão sete semanas em que quero, apenas, pura, simplesmente, de toda a alma, ser flâneur.

Sai o relógio, sai o compromisso, sai o deadline, sai o ganhar mais e mais e mais e mais, sai a necessidade de provar que é isso, aquilo, é publicitário, é empreendedor, é descolado, é nômade digital, sai a necessidade de ter uma resposta pronta para os jantares em que perguntam pra você “mas e aí, o que você faz da vida?”, sai até mesmo a vergonha e medo de ter que me explicar sobre como pretendo fazer para ter dinheiro nos próximos 2 meses (ou mesmo pelo resto da vida). Entra o flâneur.

A Wikipedia me ajuda a explicar um pouquinho dos meus planos de vida e de viagem pra vocês. Flâneur é metade curiosidade, metade fazer-nada. É andar pelas ruas, calçadas, parques, passagens, cafés, sem um trajeto definido. É estar e ser, ao mesmo tempo.

O pulo do gato, a magia da coisa toda é que flanar é o oposto de vagabundagem ou preguiça. Não é um simples andarilho a esmo. Balzac dizia que flanar é a gastronomia do olho. É degustar cada passo, observar tudo, sem tempo marcado e sem ter-quê. Sim, flâneur é o jeito mais francês do mundo de falar sobre atenção plena, aplicada à vida na cidade.

Pra quem diz que flâneur é coisa de mendigo ou coisa de quem já tem a vida ganha eu digo que é claro que é fácil flanar na França, sem outro compromisso que o de terminar de escrever um livro – mas os meses de puro estresse e mudanças constantes que precederam (e permitiram) essa viagem me mostraram que do jeito que esteve não dá pra continuar. E quando voltar, quero tentar de todos os jeitos permanecer flâneur. Prestar atenção no fluir do metrô cheio ou no aroma do bolo assando aqui em casa, entender o passarinhar do passarinho no outro lado da avenida e no gingado esquisito do mendigo que mora aqui no bairro. Esteja eu cheia de jobs ou cheia de sonhos, ou os dois juntos, que é bom também.

 

The crowd is his element, as the air is that of birds and water of fishes. His passion and his profession are to become one flesh with the crowd. For the perfect flâneur, for the passionate spectator, it is an immense joy to set up house in the heart of the multitude, amid the ebb and flow of movement, in the midst of the fugitive and the infinite. To be away from home and yet to feel oneself everywhere at home; to see the world, to be at the centre of the world, and yet to remain hidden from the world—impartial natures which the tongue can but clumsily define. The spectator is a prince who everywhere rejoices in his incognito. The lover of life makes the whole world his family, just like the lover of the fair sex who builds up his family from all the beautiful women that he has ever found, or that are or are not—to be found; or the lover of pictures who lives in a magical society of dreams painted on canvas. Thus the lover of universal life enters into the crowd as though it were an immense reservoir of electrical energy. Or we might liken him to a mirror as vast as the crowd itself; or to a kaleidoscope gifted with consciousness, responding to each one of its movements and reproducing the multiplicity of life and the flickering grace of all the elements of life.

— Charles Baudelaire, “The Painter of Modern Life”, (New York: Da Capo Press, 1964). Orig. published inLe Figaro, in 1863.

 

É isso. Esse é meu plano, que começa amanhã, que tem e não tem a ver com minha crise sobre continuar morando ou não em cidades grandes.

Porque acho curioso ver como o conceito de flâneur nasceu exatamente junto com as cidades, que no século 19 eram muito mais vazias e lentas, mas já eram devoradoras. Afinal, foi quando as cidades nasceram e se encheram que as pessoas tiveram que aprender a dividir pequenos espaços públicos sem se cumprimentar. Pense nisso: para acelerar a vida, para nos cansar menos, para fugir de conversas, aprendemos a dividir elevadores, vagões, carros, sem um bom dia. Aprendemos a nos des-conhecer.

É de arrepiar a espinha esse desconhecimento, não?

E eu aqui, com medo dos 50 dias de desconhecido que serão essa viagem, como se o desconhecido não fizesse parte de nossos dias a cada minuto… 😉

Leia mais sobre o flâneur aqui 

E está convidado a acompanhar meus próximos passos de agora em diante! O próximo pode ser amanhã enquanto eu estiver fazendo as malas, ou mais pra frente, em outro continente.

🙂

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