O pulso ainda pulsa

fogo

Sobre criar, sobre escrever, sobre deixar o cérebro e o coração escorrerem pelas pontas dos dedos, sobre falar um pouco sobre sua verdade, com um pouquinho de edição, deixar dizer o que você tem por dentro.

Sobre escrever, um post sobre escrever e sobre fugir de sua sina e falhar miseravelmente, porque escrever é do que você é feito.

Fiquei aqui pensando. Tentando lembrar quando foi que eu descobri que era escritora. Não me lembro exatamente – mas o engraçado é que lembro de todas, todinhas as vezes em que descobri (ou inventei) que não era.

Nasci em família de leitores, com estantes cheias de livros. Me interessei por aquelas letrinhas tão cedo! Antes de saber escrever, lembro como eu me sentava na varanda do prédio e escrevia diários. Escrevia num alfabeto imaginário, uma coisa que parecia um vvvvvvvvvvvvvvv, mas que eu entendia muito bem.

Deve ter sido por isso que minha irmã de 8 anos decidiu me ensinar a ler e escrever de verdade – e aprendi direitinho, quando eu tinha 4 anos. Imagina, mal tinha aprendido a falar! Tão logo juntei as palavras de uma embalagem de longa vida (simbólico, talvez?) que estava na geladeira, descobri como fazer isso sozinha, agradeci minha irmã e saí juntando todas as outras palavras do mundo.

Com 7 anos, já tinha um diário (costume que levo até hoje). E tomava ditados dos meus coleguinhas de escola – o que nunca contribuiu para minha popularidade, mas aprendi a superar, usando o gosto pela leitura a meu favor.

Costumava ser a melhor aluna na aula de português – claro que só até o momento em que entramos nas teorias da gramática. Nunca fui pessoa de teoria, sempre fui mais apaixonada pela prática. E errava todas as análises sintáticas de frases – mas minhas frases eram impecáveis, mesmo eu não sabendo dizer se o que tinha acabado de escrever era um objeto direto ou indireto. Quando chegou literatura, no colegial, briguei com o professor, que ao final do período confessou que morria de medo de eu corrigir algum erro literário dele (afinal, ele era jornalista e conhecia mais de Marcelo Rubens Paiva que de Machado de Assis, um ultraje para a Francine adolescente, sempre uma fã dos clássicos).

Em 2001, uma coisa linda começou a acontecer. 2001 foi um ano muito importante pra minha vida – com 14 anos, me sentia alinhada ao universo. Foi quando me converti oficialmente e me batizei, a fase em que estive mais alinhada com tudo o que acredito até hoje. Foi quando aprendi a tocar piano. Algo muito cósmico acontecia naquela época. Foi, inclusive, quando o meu marido (até então, um desconhecido em algum lugar de Santos) abriu o site que foi a razão pela qual nos conhecemos.

Também foi quando uma vontade muito grande de escrever um livro nasceu. E comecei a escrevê-lo.

E 15 anos se passaram e eu não terminei.

E hoje eu entendo porquê. Hoje eu entendo que passei os últimos 15 anos fugindo de ser quem eu sou, de uma forma ou de outra. Nunca foi nada terrível, não é como se eu tivesse me perdido na vida – pelo contrário, eu estive incrivelmente achada. Uma carreira muito bacana como publicitária, depois o famoso “largou tudo para abrir seu próprio negócio” e todo o status de empreendedora criativa que vem com isso… mas nunca tive coragem de constatar o óbvio: não sou publicitária. Não sou empreendedora. Ou sou tudo isso… mas sou, acima de tudo, e no fundo de tudo, escritora.

Engraçado como a gente repara nessas coisas depois. Pela lógica da vida e da paixão pelas palavras, eu devia ter feito jornalismo e devia ter feito letras, mas decidi cursar publicidade. Porque se tinha uma coisa que amava tanto quanto escrever era “criar”, de um modo geral. E ainda amo. (Na realidade, como cristã, acredito que criação é a força mais poderosa que temos. Está ali, lado a lado com o amor [e é por isso que o poder de criar uma vida através do próprio amor é o maior presente que recebemos como seres vivos, na minha opinião] – e está nas nossas mãos. Acredito que criar nossas próprias vidas da melhor maneira possível é perpetuar a criação de Deus no universo… e coloquei isso tudo entre parênteses, porque seria assunto pra outro post, mas decidi juntar tudo). E entrei em publicidade tendo certeza de que queria criar, mas não queria ser redatora. Passei os 3 primeiros anos da faculdade dizendo pra quem quisesse ouvir que EU NÃO PASSARIA MADRUGADAS PENSANDO EM UM TÍTULO SENSACIONAL PARA UM ANÚNCIO, QUERIA CRIAR “DE FORMA GERAL”. Claro que esse pensamento um tanto generalista me rendeu uma certa dificuldade pra encontrar um emprego, mas consegui algo incrível e com esse perfil depois de tentar bastante. Trabalhei 1 ano com guerrilha, um tipo de propaganda que amava demais. Não era óbvio, não era uma chatice como quase toda propaganda é e a equipe era incrível.

Até que o departamento foi fechado e fomos todos para a rua.

E resolvi, a muito custo, virar redatora.

Tirei um portfólio da cartola, fui contratada em uma agência super incrível que estava começando e o resto é história. Passei praticamente 7 anos, entre idas e vindas, trabalhando com redação publicitária – que é um jeito um pouco besta, mas completamente legítimo, de ser escritora.

E assim fui escritora para várias marcas. Fui a escritora que contou a história de personagens como o Itaú, a Natura, Intimus, Huggies e muitos outros que nem me lembro mais.

E o meu livro continuava lá, tímido e lento, às vezes calado, mas quase sempre sendo escrito em horários de almoço espremidos enquanto estava na agência. Eu conseguia olhar pra ele e guardá-lo como meu tesourinho, minha garantia de que tudo podia dar errado, mas ele seria meu trunfo.

E meu blog, bem, a frequência com a qual atualizo meu blog é um excelente termômetro do quanto ando ou não alinhada com o que quero pra minha vida. Pois é, você já entendeu pra onde isso vai.

Até que não rolou mais. A vontade de criar algo novo, de fazer algo mais meu, veio com tudo. E veio sob a forma de um negócio novo, a Sras&Srs, bebê lindo que já nem é mais tão bebê assim e do qual gosto muito. Ajudar casais a fazerem casamentos mais verdadeiros e menos cafonas e menos cheios “de requinte” (quem lê esse blog há anos saw that coming há muito tempo atrás, não?) é uma coisa incrível. Gosto muito de fazer isso.

Mas tem alguém me olhando lá de dentro da gaveta.

Que me diz que faz 6 meses que não conversamos. Nem no horário espremido no almoço, mais. Que me diz que sou uma traidora, porque a razão principal pela qual eu tinha largado meu emprego das 9h às 18h é porque ia parar de criar histórias para marcas e criar aquela história que quer sair de mim.

Porque na inexperiência de poder ter tudo, de poder fazer tudo, abracei tudo e esqueci de uma coisa, uma coisa simples: esqueci do que tinha que fazer.

Desde maio, estive trabalhando de domingo a domingo, sem parar, criando casamentos, sim, mas escrevendo não muito mais que os e-mails para clientes e fornecedores.

E embora criar casamentos dê um prazer danado, tinha algum ponto cego aqui dentro que se encontrava muito, muito contrariado.

Já faz algum tempo estou planejando uma desaceleração nessa loucura toda – e finalmente chegou outubro. E hoje, pela primeira vez em muito tempo, embora ainda tenha algumas coisas pra finalizar antes das férias chegarem oficialmente, consegui olhar pro relógio sem entrar em desespero e sem ter alguma coisa pra fazer.

Achei que quando essa hora chegasse, ia me afundar no cobertor e relaxar.

Não. Vim pra cá, escrever.

Porque estava com uma saudade danada do poder criador da palavra.

E mesmo sem saber onde queria chegar com esse texto todo, cheguei aqui. E não estou nem preocupada por ele ter saído tão grande e meio, até, manquinho. Porque mostra o quanto ele estava entalado aqui dentro.

Hoje, cheguei ao primeiro post oficial das minhas férias – mesmo antes de elas chegarem oficialmente. E estou muito feliz.

Porque dia 27/10 começará a viagem em que vou terminar de escrever meu livro. Porque acho que a gente pode agradecer quando está realizando um sonho (mesmo tendo demorado um pouco pra entender que era o que estava acontecendo). Porque sempre achei incrível pessoas que saíam de viagem para terminar de escrever um livro. Lia ou ouvia isso e pensava “é o que quero pra minha vida”. E, sem querer, acabei fazendo isso.

Minha ideia é atualizar esse blog com frequência durante a viagem – mas se eu não o fizer, a razão é boa – vai querer dizer que a família Zaspargo, o Pedro, a Greta, o Gregório e a Daphne estarão voltando à vida e verão um ponto final, finalmente.

Obrigada pelo dom de gostar de escrever, devo tudo a e(E)le.

🙂

2 thoughts on “O pulso ainda pulsa

  1. QUE TEXTO, amiga. <3
    Obrigada por ele e por isso!
    Me identifiquei com tanto que acho, suspeito muito, que a gente tem que tomar um café. haha
    E: vai fundo <3

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