Hoje eu ia ficar quieta

Porque passei os últimos anos não tocando nesse assunto, porque “política não é pra mim” e não gosto de discursos de ódio. Mas eu decidi vazar minha própria visão, já que tanta coisa vazou e veio me mostrar que as coisas às vezes são menos em tons de cinza do que parecem. Ah, a escala de cinza, “mas veja bem, todo mundo tem mais que dois lados”, mas quanta gente tende a ficar num lado só. E aí a coisa fica preta.

Durante todo esse tempo (antes dessa semana), eu dizia que queria ser uma mosquinha pra ouvir os diálogos de Dilma porque eu não gosto de polarizações. Queria entender a motivação, a sinceridade, a verdade de tanta teimosia pra não abrir o diálogo. Ficava pensando o quanto ela devia estar sofrendo com essa pressão toda. Que não era fácil pra ela, que era tudo exagero. Até que essas divulgações de áudio (e não vou entrar no mérito da validade delas ou não, estou falando do conteúdo e não da forma) saíram e todos conseguimos virar mosquinhas.

Fiquei uns dois dias sem palavras. A verdade é que fiquei estarrecida, e olha que não sou de usar essa palavra à toa, não. Sou redatora e escolho bem as palavras. Talvez tenha sido por isso que foram as palavras que me chocaram. Não, não foram as denúncias de corrupção econômica. As manobras políticas me incomodaram muito, mas acho que é o preço que se paga por viver em uma sociedade. Foram as palavras.

Não sei o quanto eu espero o melhor das pessoas – e acho que é isso que pega pra mim, ver que nem sempre o melhor é fácil de encontrar – mas eu juro que acreditava em um corpo político que se expressasse com menos ódio. Menos risada de escárnio, menos palavrão, menos descaso. Mais preocupação com o povo. Com o povo, sem distinção de rico, pobre ou qualquer outra coisa, porque já conheci bem os dois lados e sei que na prática é tudo gente.

Sempre achei que expressões como “coxinha” e”tucanos” eram tão estúpidas quanto “petralhas”. E que era coisa de grupo de whatsapp, daquele seu amigo meio mala, no máximo de imprensa meio atrapalhada.

Mas descobrir que o discurso de ódio vem de cima me chocou. De todas as ligações políticas que vazaram, a que mais me atingiu foi a menos política, por isso a mais sincera. Foi ouvir o diálogo da ex primeira “dama” (sic) rindo desses “pobres que não conseguem comprar apartamento em São Paulo” (e ouvi tanta gente dizendo que tinha votado na reeleição por causa da camada mais pobre, acreditando em uma preocupação social bonita e não uma preocupação em ganhar o poder*). E usando a expressão coxinha a torto e a direito.

Coxinha. Mas que palavra. Porque se é pra nos atermos às palavras, posso ir longe. Vamos falar sobre a coxinha. Uma comida simples, que nivela todo brasileiro. Porque tem coxinha de boteco e tem coxinha gourmet e é tudo coxinha. Tem coxinha em casamento de buffet chique e casamento de quintal. Se você quer mostrar o que é o Brasil pra alguém, você apresenta ele pra quê? Brigadeiro, guaraná… e coxinha.

Coxinha é Brasil. E é uma comida bem inofensiva, mas se você engolir muita coxinha, ah, isso vai dar um mal estar danado.

 

*lembrei de uma época em que trabalhei em uma ONG. Toda caridosa, queria ajudar os pobres, mas não gostava muito de pobre não, gostava mais era do poder que isso dava pra ela. Cansei de ver as pessoas que trabalhavam ali desligarem o telefone morrendo de rir porque a pessoa “incapacitada” do outro lado tinha falado “pobrema”, ou estava com dificuldade de entender alguma coisa.

 

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