A diretora de multinacional e “a mulher que ajuda lá em casa”

aspirador

Há quase 3 meses, temos usado aqui em casa um desses serviços online de busca por diaristas. Como tudo na vida, essa forma de contratação tem seus pontos positivos e seus pontos negativos. Até agora não tivemos nenhum problema grave, e a qualidade do trabalho das pessoas que vêm em casa geralmente é boa. Mas o mais interessante nisso tudo é conhecer as mais de 20 moças que passaram aqui em casa e o residual que fica de cada uma sempre que dou tchau e agradeço pelo serviço prestado no dia.

Tem gente que sai sorrindo, agradece, se coloca à disposição para vir outras vezes. E tem gente que sai de cara amarrada e não disfarça seu clima de “GRAÇAS A DEUS O DIA ACABOU”, que muitas vezes, na vida de escritório, temos quase que a obrigação de disfarçar.

E só confirmo o que sempre considerei: que a contratação de diarista para casa serve como qualquer tipo de contratação que já tive que fazer na minha vida corporativa. Mais que a qualidade técnica, o que eu gosto é de gente legal. Gente alto astral, animada e criativa. Sim, porque gente criativa não é só gente moderninha que trabalha em agência. Diarista que tem capacidade de improvisar um varal sem me perguntar “e agora o que faço com toda essa roupa?” é mais criativa que muito publicitário que já conheci. Limpar uma casa tem mais técnica que muita função considerada “mais nobre” por aí: além do óbvio talento que limpar bem uma casa necessita, tem muito gerenciamento de tempo, tem empatia e compreensão do briefing, tem que ter um ótimo serviço de atendimento e acima de tudo – vale pra tudo na vida – paixão pelo que se faz.

O que me deixa encafifada é que muitas das pessoas que trabalham nessa função não percebem o valor disso tudo. Já ouvi alguns “não gostou, me demite” de algumas diaristas na vida (apenas duas, ufa) e isso me mata por dentro. Porque são pessoas ótimas no que fazem tendo uma atitude nada profissional (imagine se eu dissesse isso pros meus chefes a cada feedback negativo!). E sei que essa atitude defensiva vem de mil origens – de muito perrengue na vida, da postura brasileira de “todo patrão é do mal” que por vezes me irrita, ou talvez porque seja essa a única forma de encarar a vida que elas receberam de família, amigos e patrões realmente babacas pela vida afora – mas acho que ela vem da história de uma sociedade que nunca encarou esse tipo de profissão como algo oficial (tem até um tabu, já reparou como até hoje todo mundo trava, não sabendo se pode falar “minha empregada”, “minha funcionária”, “minha faxineira”, “minha diarista” ou até mesmo o surreal “a mulher que ajuda lá em casa”?). Com essa confusão generalizada, muitas das faxineiras nem imaginam que elas são profissionais, são uma marca, e que investir em um diferencial é tão importante para a marca delas como para qualquer marca grande por aí.

Eu queria ver esse cenário mudar e tento, nem que seja a passo de formiga, mostrar pra todo mundo a importância que seu trabalho tem. Nesse post, grito aos quatro ventos que não importa se você é faxineira, taxista, diretora de multinacional, ator, autor, escritor, gari, motorista de ônibus, condutor de trem ou metrô, vendedor de pastel, grande ou pequeno, uma marca mirabolante ou uma dona de casa cuidando de 2 marquinhas recém-nascidas ou um aposentado que só quer ser feliz, investir em plano de carreira, marketing pessoal e paixão pelo que se faz não é só coisa de engravatado ou de palestra do TED (ou não devia ser).

E acima de tudo queria agradecer por todo mundo que faz a nossa vida melhor fazendo um trabalho impecável no trabalho. Em todas as microáreas da nossa vida.

 

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