A FONTE

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Quando eu era jovem, mais ou menos quando andava com minha então melhor amiga, de meias três quartos listradas me achando muito maluquinha, tínhamos uma piada interna recorrente: falávamos da FONTE. A FONTE era o lugar de onde vinham as coisas que não sabíamos de onde vinham. De onde vinham as gírias, as piadas da moda, as febres que invadiam o colégio, em suma, as ideias. Lembrei dessa nossa teoria assistindo a essa conversa do Austin Kleon, que fala desse conceito (explorado à exaustão por ele, mas sempre de uma maneira bacana). O que ele fez foi um exercício divertido que acho que todo mundo deveria fazer, uma espécie de árvore genealógica de uma ideia.

Você vê neste vídeo o caminho que ele traçou baseado em sua técnica de poesia (que é, basicamente, “escrever” textos apagando frases de um jornal). Essa técnica lembra a de um cara X, que se inspirou na técnica de outro cara Y, que criava se baseando na ideia de outro, e assim foi até chegar nos idos de 1700. Nessa busca pela FONTE, encontrou gerações e gerações de copiadores que conseguiram fazer artes geniais misturando uma ideia com outra. E é assim que funciona a criatividade, mesmo em nosso cérebro: nada mais que uma colagem de referências. Referências que dão cria! 😀

No fim, ainda não sei qual é essa FONTE (ou sei, mas não vou contar), mas essa frase do Bob Dylan citada no vídeo resume muito de tudo. Inclusive do mundo das ideias: “Se você rouba um pouco, te colocam na cadeia. Se você rouba muito, te transformam em um rei.”

Veja o vídeo:

Como criar a história perfeita, em sete passos

Nem sempre é bom escrever usando fórmulas, mas sempre é bom escrever dando uma olhadinha nessas coisas de vez em quando, pra ver se tem alguma coisa desarredondada na coisa toda. Se arredondar for melhorar a experiência do leitor, não vejo porquê não dar uma arrumadinha. Eu mesma tinha uma dúzia de personagens sem motivação no meu livro. Só recentemente é que percebi como é legal dar uma razão de ser e um crescimentozinho pra quase todos os personagens no decorrer da história. Afinal, não é só o protagonista que merece passar por uma transformação na vida. : )

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Retirado daqui

O palhaço egoísta

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Nunca fiz curso de palhaço porque não me interesso (não me interesso pra minha vida, para o que eu acredito sobre o ser palhaço, mas você é quem sabe a respeito do seu nariz), então já comecemos trabalhando com essa informação. Mas sou palhaça há cerca de 8 anos, em hospitais. Sei a diferença entre o Bozo e o Slava, e sei do desconhecimento do público a respeito do tipo mais, digamos, intelectualizado do palhaço. Ou clown, que seja.

Vai ver meu problema é não curtir palhaço intelectualizado. É que pra mim palhaço é sensibilidade e intuição, e pra mim a partir do momento em que intelectualizamos a intuição o palhaço morreu. Então tiro o nariz, tiro mesmo (porque pra mim os melhores palhaços não precisam se esconder por trás da máscara para encontrar seu verdadeiro eu universal), para falar sobre uma coisa que me deixou chateada quando fui assistir ao Slava sexta feira: o público intelectual.

O palhaço russo se apresentou em um teatro de shopping, e teatro de shopping tem um público de shopping, tem as pessoas que vão lá achando que palhaço russo é palhaço do Vostok. Tem sim. Paciência. Vi gente conversando entediada, gente tirando fotos com flash totalmente alheias à postura esperada em um espetáculo daquele e tinha uma moça na minha frente me fazendo o favor de checar o Facebook no celular de cinco em cinco minutos. Mas nada disso me incomodou tanto quanto o grupinho que sentou atrás de mim.

Era um grupinho que mandava as pessoas se calarem a cada tossida alta. E pior: mandava AS CRIANÇAS se calarem. Eles estavam tão preocupados consigo mesmos, em mostrar para o público ao redor que aquilo não era um show do Patati Patatá, que não devem nem ter entrado na magia do gênio que estava no palco. No intervalo, eles não pararam de falar sobre esse publicozinho de shopping. Fiquei pensando se elas não seriam as mesmas que reclamam no Facebook que o público brasileiro deveria ter mais acesso à cultura. Porque se mantivermos o Slava restrito à Praça Roosevelt, a boa cultura vai continuar assim, coisa da elite de palhaços que só olha para o seu próprio nariz. Se estamos dispostos a deixar “o público de shopping” mais inteligente, vamos ter que aguentar um pouco de foto com flash nos espetáculos, sim. Faz parte da curva de aprendizado. Deles e nossa.

Mas pra mim o que mais marcou foi mesmo ver as pessoas mandando AS CRIANÇAS se calarem. Repito isso porque é o que me deixa triste. Se palhaço é espontaneidade, é rir de seu próprio ridículo, pra mim o cúmulo da ironia é se incomodar ao ver crianças se divertindo e “errando”, sendo tocadas pela espontaneidade do que está acontecendo lá na frente. Fazer uma criança rir alto ou falar alguma coisa fora do script pra mim é sinal de que o palhaço funcionou. E funcionou bem.

E como palhaços ou como pessoas à paisana, ainda acredito que elas é quem têm que nos ensinar a nos comportar na vida. E não o contrário.

Dito isso, beijo no nariz.

Tão morrendo de cada coisa

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Eu tô doidona. Doidona de raiva, mesmo. Tudo está me irritando, um pombo que ande um pouco mais torto na calçada já merece meu ódio mortal. Recorri à terapia (mas aí só tive dinheiro pra uma sessão), à homeopatia, e quase à corrente de oração da madrugada. Mas sei lá. Acho que depois de ter conseguido começar a (não) gastar dinheiro seguindo planilhas e não meus instintos mais primitivos me senti mais no controle da minha situação, menos à mercê das surpresas do tipo NO CHEQUE ESPECIAL DIA 15, MAS JÁ, COMO ISSO ACONTECEU???? (hoje, a diferença é que entro no cheque especial, mas pelo menos já sei que vou entrar, enfim essa é outra história), e comecei a melhorar um pouco.

Bem pouco.

Já tenho menos vontade de xingar alto, pelo menos.

O caso é que depois de estar (QUASE) curada desse estresse em níveis terríveis comecei a reparar o quanto as pessoas se desesperam com nada nessa vida civilizada. Parece que, basta acontecer alguma coisinha fora do script, todo mundo vai morrer. As causas mortis hoje são das mais estranhas. Tipo

Morte por pedestre na faixa.  O sinal abriu, o pedestre já estava atravessando, e nada pode fazer agora que está no meio da rua. Errou, calculou errado, acontece. Aí o motorista acha que vai ser atropelado ao contrário, porque não é possível, acha que vai morrer, que AH DEUS JÁ ERA ACABÔ e buzina em um verdadeiro furor.

Morte por incompetência alheia.  Noventa e nove por cento dos colaboradores do mundo têm falhas. Desses, uns 820% erram toda hora e são incompetentes, sim. E provavelmente esses são os que ganham mais que você. Aí em vez de sorrir porque pelo menos você não é desses e vai pro céu mais rápido dá aquela dor no peito aquela fofocada no almoço e aquela vontade de aaaaaaaAAAAAAAAAAAAAAAAAAAG e UUUDGHSHG

Morte por trânsito parado. Se você não acredita que estando dentro de um carro no trânsito você é o trânsito, então você pode acreditar que o trânsito é um grande monstro da antiguidade que rege a Terra e tem grandes dentes afiados prontos para devorar sua alma e arrancar sua cabeça fora. E que sorte. A buzina é sua única defesa contra ele.

Morte por 5 minutos. Essa é a morte que tem tido mais saída. O caixa eletrônico travou, o vizinho está usando a máquina de lavar roupa e esqueceu a roupa ali, o elevador passou reto e te desprezou. O tempo perdido foi cerca de 5 minutos. OS CINCO MINUTOS MAIS IMPORTANTES DA SUA VIDA. Quanto tempo você costuma ficar no Facebook todo dia, mesmo? Não importa, foi letal.

Morte por telefone não atendido. Vivemos em plena era da liberdade e da comunicação. COMO AS PESSOAS PODEM DEIXAR DE ATENDER SEUS TELEFONES? O som de caixa postal bate em seu cérebro e causa uma síncope mortal, pum pof caiu duro no chão.

Morte por adolescentes chatos. Eles são pequenos mas andam em bando. Eles falam alto, têm opiniões diferentes das suas, são desengonçados e podem até esbarrar em você de maneira tal que seu cerebelo vai cair quicando no chão e te levar a nocaute, sem querer.

Morte por comentário na internet. Eles estão aí faz tempo. Mas antes comentavam baixinho, em casa, almoçando, e suas ideias não atrapalhavam seu dia a dia. Agora que o Facebook deu diploma de crítico pra todo mundo, a peste bubônica dos comentários babônicos VAI PEGAR VOCÊ. Se você não se vacinar, é claro.

Sei lá, gente. Sempre aprendi que cada 5 minutos ganhos no grito são 10 minutos a menos de vida. Mas sei também que preciso lembrar disso ultimamente. 🙁

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